Hanna Fisio

domingo, 28 de junho de 2015

SERENITY

PARTE 16 - LEONARD
Por Jair Nepomuceno

O frio da alma se reflete quando o amor está esquecido dentro do peito, essa frieza pode nos tornar um criatura cruel, pode nos tornar meros arautos do mal.

Por onde começar? Essa era  a pergunta que Vinne fazia para si, a cada momento novas informações surgiam e na mesma velocidade que apareciam causava-lhe mais dúvidas, e atiçava a sua curiosidade. Saber que o menino supostamente havia sido assassinato antes de ter o corpo queimado o deixou confuso, precisava saber o que havia acontecido naquele quinze de Agosto, há pouco mais de três anos.
O novato tomou coragem e decidiu ir conversar  com Roland, aquele homem o assustava, mas a sua tentativa de tornar-se impávido o fez seguir adiante, no caminho ouviu um sussurro que vinha de uma escada que dava acesso ao porão, ele parou e respirou fundo, a avidez o fez descer aqueles degraus, ele escorava as costas na parede marrom para não fazer tanto barulho, a luz era fraca, bem pálida. Vinne chegou ao fim da escada e ouviu uma voz feminina que parecia conversar com outra pessoa, se concentrou para escutar sobre o que falava, principalmente porque o porão não era o lugar mais adequado para aquela situação.
- Não, não posso hoje! - A mulher falava com nervosismo. - Ele já está desconfiando! Se ele descobrir a gente vai entrar em uma fria. Você então, será penalizado do pior jeito, e eu não quero embarcar nesse trem. Não, eu não disse nada e nem vou dizer...
Nesse momento Vinne toca a ponta do pé em uma lata vazia de tinta e o barulho faz a mulher correr em sua direção, era Melissa, ela segurava um pequeno machado, o psicólogo espalma as duas mãos para frente e diz:
- Calma, calma, sou eu!
- O que você está fazendo aqui? - Grita a recepcionista que também era técnica em enfermagem.
- Eu ouvi um barulho e desci!
- Quanto tempo você está ai? - Ela segura o machado com as duas mãos, Vinne se desespera, estava acuado, ainda de mãos para cima espalmadas para frente tenta despistar a irritada mulher.
- Eu acabei de chegar! tropecei na lata, vinha descendo rápido as escadas, você não me ouviu descendo, eu até perguntei quem estava aqui?
- Não, não ouvi!
- Pois é, mas eu perguntei! Me desculpe por assusta-la!
Melissa baixa o machado para o alivio do assustado jovem, e tenta também justificar o que fazia ali em baixo, embora ele não tivesse perguntado.
- Eu ouvi um barulho alto quando ia passando, deixei a  recepção por um segundo para ir ao banheiro. Acabei descendo aqui, mas acho se tratava de ratos. Ratos enormes!
- Eu imagino que deva realmente ter ratos aqui nesse porão. - Disse Vinne. - Esse hospital é enorme e rato é uma praga, adora hospitais não é?
A mulher parecia não ter engolido totalmente a história do rapaz, mas descansou o machado em uma parede e subiu as escadas, antes disse que iria chamar a dedetizadora, o psicólogo respirou aliviado, olhou e a viu sumir na virada do segundo jogo de escadas, ele desabou, sentou-se ao chão para recuperar o fôlego.
Um minuto depois desse inusitado encontro, Vinne se levanta e decide olhar um pouco o que havia naquele porão, enquanto aventurava-se naquele local ficou lembrando das palavras de Melissa, "Ele já está desconfiado! Se ele descobrir a gente vai entrar numa fria", que fria? Indagou a si mesmo o novato.
Vinne estava olhando dentro de uma armário de aço quando ouviu um choro de criança, virou rapidamente, seus cabelos ouriçaram.
- Tem alguém ai? - Não obteve resposta, continuou. - Tem alguém ai?
O choro parou e o silêncio que veio a seguir foi perturbador, o psicólogo começou a  andar de costas rumo as escadas, parecia que a sua coragem o havia abandonado naquele instante, mas o pior ainda estava por vir, detrás de uma velha máquina industrial do tipo que lavava grande quantidade de roupas ele viu Leonard se arrastando, o menino estava andado de quatro apoios, mas de barriga para cima, sua cabeça estava ligeiramente contorcida para frente, trajava apenas uma cueca azul os olhos brancos e sem vida acompanhava aquela cena aterrorizante. Vinne da um grito e corre o mais rápido que pode para as escadas, tropeça no segundo degrau e cai, olha para trás e no teto consegue ver uma outra criatura, um vulto preto rastejando pelo teto, um calafrio ainda maior o acometeu e o pobre psicólogo usou de toda a sua força para correr o mais célere que podia, o alivio só voltou quando finalmente chegou ao saguão principal, sentou-se ao chão, estava ofegante e tremia, Brenda se aproximou dele.
- O que houve, Vinne? Você está bem?
O novato olha para a recepcionista e nada diz, engole a seco e tenta se levantar.
- O que aconteceu? - Desta vez foi Michael que chegou perguntando.
- Eu não sei! - Disse Brenda. - Ele está pálido!
Michael se abaixa e segura a cabeça de VInne olha em seus olhos.
- O que houve, cara?
- Nada!
- Como nada? - Indagou Brenda. - Você está sem nenhuma gota de sangue no rosto! Viu um fantasma, foi?
- Eu só estou precisando me recuperar. Acho que a minha pressão baixou! - Respondeu Vinne tentando ser discreto.
- Quer ir a enfermaria? - Perguntou Michael.
- Não! Eu tenho remédio em meu armário!
- Você quem sabe. - Falou o outro psicólogo.
Vinne foi até o bebedouro e tomou um gole de água enquanto era observado por Michael e Brenda, ele virou-se para os dois e disse:
- Eu já estou melhorando! Obrigado pela preocupação! Isso já me ocorreu antes!
- Se precisar de algo me fale. - Gritou Brenda.
O  novato então seguiu para o quarto andar, tomou o elevador e foi ao encontro de Roland, mesmo ainda estando abalado com o que havia acabado de presenciar, mas a sua investigação não podia parar, não agora, estava sentindo que os mistérios de Serenity haviam começado a ficarem claros.
O psicólogo parou de frente a cela de Roland Connor, o interno estava de costas, mesmo assim, para a surpresa de Vinne ele falou:
- Então retornou para falar comigo hein novato?
- Alguém me mandou conversar com você!
Roland se vira para olhar o psicólogo, levanta-se lentamente e assim que chega próximo as grades diz:
- Está assustado!
- Pelo amor de Deus, Roland. O que existe nesse hospital?
- Deus não tem nada  a ver com isso, garoto!
- Quem matou Leonard?
- Leonard foi morto, não pelo incêndio, mas por alguém que ainda está aqui!
- Quem?
- Ele não me disse! Mas disse que a pessoa já começou a te observar! Tome cuidado seu filho da mãe!
- Eu o vi. O tenho visto quase que constantemente! O que ele quer de mim?
- Leonard era uma criança de nove anos, cheio de vida. Mas não tinha o amor que merecia por parte daqueles à sua volta. Ele vinha para cá acompanhado da mãe, ela não tinha com quem deixar o menino, então ele vinha sempre aqui. Ele é uma criança carente de afeto!
- Ele "era". Leonard está morto!
- Ele tem assuntos inacabados aqui!
- O que ele quer comigo?
- Seu vinculo com o passado de Serenity é a razão de você se preocupar, mas acredite,  Leonard é a menor de suas preocupações, carinha.
- Como assim?
- Existe outro que não gosta de você! E ele teve ligação direta com o teu vinculo do passado! Mas o outro ele não pode atingir, mas você ele pode tentar!
- Isso não faz sentido!
- Faz se você souber o que houve entre ele o teu vínculo!
- Isso você não vai me dizer não é?
- Posso dizer. Mas vai depender de duas coisas!
- Cite-as!
- Primeiro de você me tirar daqui!  E a segunda de Leonard. Ele tem planos e eu não irei atrapalhar os planos dele!
- Eu não posso tirar você do isolamento!
- Pode sim, através de uma avaliação!
- Por que eu faria isso?
- Porque sinto falta do jardim, e de sentir o sangue novamente em minha boca!
VInne arrepia-se, chega a afastar-se um pouco mais da grade.
- Sangue? Você está falando sério?
- O sangue é revigorante. - O interno sorrir, um sorriso tão macabro que o psicólogo sentiu medo.
- Você merece ficar exatamente onde está agora!
- Isso me entristece! - Sorriu mais uma vez Roland. - Não precisa ficar com medo. Não sou assassino e sei me comportar.
- Não tenho mais nada a falar com você! - Vinne se vira e sai, mas ainda pôde escutar Roland Connor gritando:
- Você será vitimado, ou por causa do seu vínculo com passado, ou pelo assassino! Ambos já te perceberam seu idiota! Eu posso protegê-lo! Volte aqui seu estrume filho da puta!
O psicólogo ignora os gritou do interno e desce para o saguão, estava determinado a ir adiante, mas não havia ninguém a quem pudesse confiar, com a exceção de um outro psicólogo que estava preso.


CONTINUA...


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