SERENITY
PARTE 37 - ENTRE A CRUZ E A ESPADA
Por Jair Nepomuceno
Revelações forçadas quase sempre são aquelas que podem causar grande estrago, seria como libertar um touro raivoso em meio a multidão de pessoas.
Malcon não perdeu tempo, ele sabia que o achado era peça fundamental do quebra-cabeça, então pediu para que VInne permanecesse ali enquanto telefonava para o Distrito, estava tentando um mandado de busca, desta forma não haveria nada que pudesse impedi-lo de levar a espada.
- Andy. - Disse o Policial ao telefone. - Fale com Elizabeth e providencie um mandato pra ontem! Me traga o documento aqui em Serenity o quanto antes, estarei esperando.
Elizabeth era juiza da comarca que Saint Shophie fazia parte e ela era prima em primeiro grau do policial, por essa razão, muitas vezes ele se valia da ajuda da parente para conseguir velocidade em certos procedimentos.
- Vai dar certo conseguir o mandado? - Indagou Vinne.
- Sim! Agora tenho só que esperar, vou telefonar aqui para um amigo papiloscopista, ele vai analisar as impressões digitais. Malcon se vira para o psicólogo e completa. - Na minha profissão devemos ser ágeis. Eu tenho meus recursos.
- Estou vendo!
- Já avisei aqui para o meu tio que é perito criminal através de mensagem, ele e o papiloscopista irão me encontrar no Distrito em duas horas.
- Vai precisar de mim para algo mais?
- Você me acompanhará até o Distrito!
- Por que?
- Por que essa espada pertence a Mellissa e você a reconheceu!
- Certo!
- Então fique próximo a espada, vou te pedir licença porque preciso falar aqui ao telefone de forma bem particular! - Malcon se afasta de VInne, o psicólogo fica ali olhando a espada minunciosamente, mas com todo o cuidado de não toca-la, estava compenetrado no que fazia quando ouviu alguém sussurrar o seu nome, o jovem olha apressadamente para ver quem era, pensou por um momento que fosse Malcon, mas estava enganado.
A voz sussurrante vinha de uma sala vizinha da onde estava, ele foi até lá com passadas lentas e curtas ao abrir a porta viu Leonard, um calafrio percorreu-lhe o corpo, desta vez ficou estático, a figura de rosto deformado olhou-o nos olhos e apontou para um canto escuro, foi quando Vinne pode ver uma outra criatura desforme com dentes serrilhados e olhos esbranquecidos, quis gritar mas inexplicavelmente não conseguiu, sentiu a falta de ar, deu dois passos para trás e então tropeçou na lata do lixo e veio ao chão.
O barulho chamou a atenção do policial que correu imediatamente ao seu encontro, ao chegar no local viu o psicólogo pálido e com um olhar distante e arregalado, Malcon gritou para que ele dissesse o que havia acontecido sem sucesso, quando virou acompanhando o olhar de Vinne pode ver também a criança fantasmagórica, mas ao contrário do psicólogo ele foi em direção da aparição, mas na metade do caminho um armário de aço cai sobre o seu corpo, o barulho tirou o psicólogo do "transe" ele então se apressa e com sacrifício levanta o armário de aço o suficiente para que o policial saísse debaixo.
O dois homens se levanta do chão, tirando uns arranhões e uma luxação nas costas e nos braços, nada de pior aconteceu ao Malcon, eles voltaram a atenção para a sala e não havia mais ninguém lá, nem Leonard e nem a outra aparição.
- O senhor está bem?
- Como diabos esse armário caiu sobre mim?
- Não sei!
- Você o viu? Peguntou gritando o policial.
- Sim! - Respondeu Vinne. - E não foi a primeira vez!
- Essa é a segunda vez que o vejo também!
- E outro, foi a primeira?
- Que outro?
VInne fica assustado.
- Havia dois lá, o senhor não viu?
- Só vi a criança! Havia outro mesmo ou está brincando comigo?
- Não sou uma pessoa que gosta de fazer brincadeiras, delegado!
- O que será que isso significa?
- Ele apontou para o canto da sala e eu vi a criatura! Eu juro! Já o tinha visto antes no porão! Ele me assusta!
- Ok. - Disse Malcon. - Presta atenção! Não falaremos nada a respeito do que vimos aqui!
- Por que?
- Porque algo me diz que é isso que devemos fazer, pelo menos até o fim das investigações.
- Tudo bem!
- Vou pegar a espada, vamos esperar um de meus homens trazer o mandado, enquanto isso vamos permanecer aqui!
Vinne concorda, Malcon vai então até onde está a espada e a pega, depois senta-se em um dos degraus da escada que dava acesso do quinto para o sexto andar, o psicólogo faz o mesmo, e em seguida resolve relatar ao policial tudo que havia presenciado em Serenity nos últimos dias, deixou de participar ao investigador apenas o que envolvia Daryl.
Uma hora e meia se passaram até o telefone de Malcon chamar e ele receber a notícia que um de seus policiais já estava na recepção do hospital com o mandado em mãos, o delegado desce imediatamente levando consigo, é claro, o objeto encontrado.
Assim que chegou ao saguão principal chamou o Doutor Antony e lhe comunicou que estava levando a espada para o distrito policial, apresentou-lhe o mandado de busca e apreensão, convocou Vinne para ir depor apenas no dia seguinte, logicamente que a espada e tudo que foi conversado entre o delegado e o psicólogo caiu na curiosidade de todos que ai estavam, não é estranho entender que Antony era o mais interessado em saber o que havia ocorrido nas ultimas duas horas.
- E então, onde foi encontrado aquela espada e o que ele conversou com você - Indagou o Gestor de Serenity.
- Nós a encontramos no sexto andar! Ele não me adiantou nada, apenas disse que levaria a espada para ser analisada, ele acha que ela possa ter sido usada para matar Kevin!
- O que mais ele falou?
- Só isso! Mais alguma coisa, Doutor Antony? - Perguntou o psicólogo - Eu preciso voltar ao trabalho.
- Claro! - Respondeu secamente e prontamente o Diretor. - Está dispensado!
Daryl observou tudo a distância, não quis interpelar o seu amigo, o deixou a vontade para que partisse dele a iniciativa de conversarem a respeito do ocorrido, já Antony estava nitidamente nervoso e inquieto, fez um aceno com a mão chamando Rogger, os dois foram para o estacionamento e conversaram lá por algum tempo sob os olhares de VInne que discretamente se posicionou atrás de um cipreste, estava distante não pode ouvir o que falavam, mas conseguiu ler nos lábios dos dois homens as palavras Green Lake, cem mil e a frase " não perde por esperar".
CONTINUA...