Hanna Fisio

domingo, 19 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ
Por Jair Nepomuceno
Parte final

O dia seguinte foi amargo, mas ao mesmo tempo de redenção para Andrew, a conversa que teve com Mellisa foi muito proveitosa no que respeito a paz de espírito, mesmo com o coração dilacerado por ter a resposta final de que ela jamais voltaria a ser sua. Certas dores são como armaduras que servem como aprendizado para evitar futuras feridas, sua forma de pensar, de agir, estava passando por um momento de inconstância, de confusão, mas nesse momento, após todo o turbilhão que acontecera, ele poderia sentir que voltara ao território da razão.
Foi até o Parque Araras, ansiava em encontrar com seu misterioso amigo, estava na mesma ponte, com o corpo apoiado pelo cotovelos enquanto via as águas passarem rapidamente, como pressa, exatamente no mesmo lugar que conheceu Zel, mas, a situação agora era diferente.
- Olá, meu jovem! - Chegou como sempre de supetão, com aquela expressão serena de sempre.
- Zel! - Disse Andrew com um sorriso contido. - Quem bom ver você!
- Então, enfim libertou-se e suas amarguras, ficaram os problemas, mas esses se resolve com sanidade e com tempo.
- Sim. Confesso que me sinto muito melhor. Não serei hipócrita em dizer que estou bem, meu coração ainda clama por ela.
- Não há necessidade de hipocrisia entre nós. Sei o que sente por ela. 
- Estou indo para a Noruega, viajarei em quatro dias, estou só regularizando algumas coisas, sabe? Não quero deixar pendências para trás, embora algumas ainda ficarão, mas vou resolvê-las mesmo que demore um pouco mais.
- Problemas são um constante na vida dos homens, meu rapaz. E são importantes. Os problemas surgem para retirar aquela falsa impressão que o ser humano é pleno no conceito de criatura, pois esse conforto de plenitude pode nublar, pode enganar e a pessoa não ter a noção da real condição a que os homens estão submetidos enquanto estiverem aqui, nessa aventura chamada vida.
- Você é sábio! Espero que possamos continuar com o nosso papo. 
- Seria ótimo, mas isso não será possível. 
Andrew é pego de surpresa, ficou uns segundos olhando para Zel antes de perguntar-lhe:
- Não será possível por quê?
- Porque a minha missão chegou ao fim. Meu tempo está acabando!
- Seu tempo?
- Sim.
Nesse momento um sorveteiro vem se aproximando, Andrew então o chama para comprar um picolé, enquanto compra o picolé, tenta entender o motivo de Zel não continuar conversando com ele.
- Não entendo o porque de sua ausência. Será que não podemos continuar conversando aqui até o meu embarque pra Noruega, pelo menos?
- Eu nem te conheço! você é louco ou algo assim? - Para a imensa surpresa do jovem, essa indagação partiu do sorveteiro, ele arregala os olhos e diz:
- Não estou falando com o senhor!
- Porra, outro louco!
Andrew vira-se para Zel imediatamente, o encontra com um sorriso contido, mesmo sabendo o que aquilo significava, ele insistiu com o sorveteiro.
- Você não está vendo outra pessoa aqui além de nós?
- Você ta brincando comigo cara? Ou fugiu de algum hospício? Me paga logo a porra do picolé, não tenho tempo a perder com drogados. E se tentar alguma gracinha, olha o que tenho aqui pra você. - O sorveteiro pega um tipo de porrete e segura firmemente em uma dãs mãos, a outra estenda espalmada esperando o dinheiro.
Andrew tenta sair daquela situação embaraçosa, inventa algo para que aquele homem se acalmasse e não o trata-se como um psicopata.
- Calma meu amigo. Eu sou professor de sociologia. O que estou fazendo aqui é só uma experiência sobre o comportamento humano. Não sou louco. Tome. - Ele paga o picolé. - Pode ficar com o troco.
O homem respira fundo, recebe o dinheiro, guarda o porrete e antes de partir deixa a sua fala.
- Cuidado com as coisas que faz. Se fosse outros tempos eu o teria colocado para dormir com uma porretada na cabeça! Obrigado por comprar o picolé.
Andrew espera o sorveteiro está bem longe para falar com Zel.
- Meu Deus! O que é você?
- Você entendeu o meu significado, rapaz. Não precisamos entrar no mérito agora.
- Se só eu posso te ver, como aquele cara te cumprimentou lá no parque? Você permitiu que ele o visse?
- Na verdade, foi ele quem permitiu que você o visse. 
- Você é um tipo de fantasma!
Zel sorrir.
- Sei muito sobre o seu coração. Sei muito sobre coisas ao seu redor. Fantasmas são coisas diferentes, e depende muito da forma que a pessoa acredita nele. Muitas vezes, nossa mente é que limita o tamanho do nosso medo. O tamanho daquilo que queremos crê. 
- Por que eu?
- Por que não você?
- Você esteve esses dias ao meu lado, conheceu meu íntimo, meus defeitos, minha aberrações, meus demônios. Valeu a pena?
- Foram por suas virtudes que vim resgatar o que você era. 
- Mellisa agora está feliz. Mas eu desejei coisas ruins a ela, pelo simples fato dela não está comigo. Por que Zel, por que não podemos ficar com as pessoas que nos amam? Deveríamos escolher a quem amar. A vida não foi completamente justa comigo, pelo menos não até o presente momento.
- Meu jovem. Aquela a quem tem lealdade a você, sempre te amou, e não só como amigo. Desejou-te e percebeu que o seu amor era devotado a outra pessoa, nem isso a fez se afastar. Descobrimos o sentido do amor em atitudes como esta. Ela manteve o que sentia, mas alimentou outro tipo de amor e este, talvez seja o que faz mais sentido e o mais sublime. Então não olhe para a vida como juíza de seus problemas e que não lhe deu a oportunidade de escolha. Não é assim que as coisas funcionam.
Andrew ficou perplexo, seus olhos marejaram, e o entendimento se fez por completo.
- Cristine? - O rapaz perguntou.
- Será que ela não pensou como você? Será que não era desejo dela que o que sentia por você em segredo sumisse de seu coração? Ela tentou o exício desse sentimento, mas não obteve êxito. Então resolveu está próxima de você. Porque para ela, o simples fato de permanecer ao seu lado, já lhe rendia felicidade.
- Meu Deus! Eu, eu... Eu nunca percebi. 
- Mas o novo companheiro deu a ela uma chance real de ter felicidade. E essa tentativa dele em dar a ela a felicidade que Cristine merecia, agraciou-a hoje com um fruto em seu ventre.
- Cristine está grávida? - Andrew se admira.
- Sim.
- Ela me conta tudo! Não me contou a respeito.
- Ela ainda não sabe, mas irá descobrir em alguns dias. E você vai respeitar esse tempo, não dirá nada a ela.
- Estou atônito!
- Voltando ao que dissês antes. Se pudéssemos escolher a quem amar, não haveria a magia verdadeira do amor. Seria mecânico, sem alma. Veja o exemplo de sua amiga e tente compreender que é assim que os planos do criador estão dispostos. A evolução dos homens é feita em caminhos tortuosos, muitas vezes sinistros e dolorosos, mas a recompensa está no decorrer da vereda e, ela é grande, desde que as virtudes sejam o guia nessa jornada, pois ela não acaba aqui, existem outros caminhos a seguir e esses, não estão no conhecimento humano.
- Por favor, não me deixe no meio desse caminho. Preciso de seus conselhos.
- Não te deixei no meio, te deixei direcionado.
- Mas eu quero conversar com você, sempre!
- Você pode continuar conversando comigo. Eu sempre estarei ouvindo, sou um bom ouvinte, acredite.
- Mas não escutarei a sua voz.
- Quem disse que não? Você a ouvirá sempre que precisar de um conselho, mas não será pelo ouvido. Escutará com o coração. Estarei sempre presente, sempre perto de você, embora você não me veja, será capaz de me sentir, e melhor, será capaz de me ouvir. Não me chamará mais de Zel, no lugar deste nome, me chamará de consciência.
- Você é um anjo? 
- Serei aquilo que você precisar, sempre.
- O que será agora?
- Será exatamente como deveria ter sido. Você engajará na cruz vermelha como decidiu, você será aquilo que as pessoas precisarem que seja. Se dedicará em ajudar ao próximo como fazia antes, mas com mais amplitude. Seja um Zel para essas pessoas e você será testemunha da maior de todas as preferências de Deus, o amor.
- Qual o seu verdadeiro nome?
- Já tive vários nomes. Todos verdadeiros pronunciados por quem acreditava nele. Um nome é  apenas uma denominação, e isso não é importante dependendo do que se segue. 
- Qual o teu ultimo conselho.
- Não tenho mais nada a aconselhar. Vá. Estenda a tua solidariedade e cresça.
Zel coloca as mãos sobre os ombros de Andrew, ele sente uma paz profunda e um misto de alegria e tristeza, mas a consternação não era maior que a sensação de alívio, quando abre os olhos, Cristine estava ao seu lado, e ele sem entender o que havia acontecido pergunta a ela o que houve, e onde estava.
- Você caiu no rio das almas, sorte que um mendigo estava lá e te salvou!
Ele se senta imediatamente na cama e percebe que estava no hospital, sues pensamentos embaraçam, o que houve comigo? Será que eu pulei da ponte e esse tempo todo as coisas ocorreram? 
- O que aconteceu, Andrew? Como você caiu no rio? - Indagou George.
- Eu não me lembro! - Se assusta o rapaz. - Meu Deus! Zel, era fruto de minha imaginação?
- Você quer nos matar de susto? - Perguntou uma voz suave, do outro lado do quarto. Era Mellisa.
- Mellisa! - Se admirou. - Você veio!
- Assim que Cristine me telefonou, vim o mais rápido que pude. Você está ai ha cinco dias. Os médicos disseram que você bateu com a cabeça em uma pedra, mas os exames mostraram que haveria oitenta porcento de chances de você não ficar com sequelas, talvez perda de memória curta. 
Andrew segura a mão de Mellisa, chora, e diz.
- Eu tive um sonho. Nesse sonho, todos vocês estavam nele. E havia mais uma pessoa lá.
- Não era ao tal de Zel não né? - Indagou Cristine.
Andrew sorrir.
- Quem é Zel? 
- O cara imaginário que você dizia te visitar. - Respondeu a amiga.
O rapaz não havia esquecido do amigo, na verdade estava tentando entender tudo aquilo.
- Cinco dias fiquei aqui?
- Sim. Mas não se preocupe, a sua viagem para Noruega está mantida. Seu amigo voltará na próxima semana, se você estiver de alta, poderá ir com ele. Tem certeza de que é isso mesmo que quer? - Indagou Cristine.
- Acho que sim. - Ele baixa  a cabeça, e compreende que não foi sonho, Zel apareceu pra ele,se sentiu aliviado, mas  isso queria dizer também que Mellisa só estava visitando-o.
- Pois bem - Disse Cristine. - Se você passar muito tempo fora, vai perder o nascimento do seu afilhado. - Seus olhos brilham! - Eu estou grávida!
Andrew a abraça calorosamente, dar os parabéns, e se compromete a retornar da Cruz vermelha para acompanhar o nascimento do filho da amiga. A enfermeira entra no quarto e pede para que todos se retirem, havia acabado a hora da visita, todos se despedem, quando a porta do quarto se abre, Andrew pôde ver um homem lá fora que esperava por Mellisa, depois do beijos entre eles, percebeu que era o tal que havia conquistado o coração dela. 
- Tente descansar agora, provavelmente o médico amanha lhe dirá a previsão de alta. - A enfermeira informa a Andrew, se despede, mas quando ia saindo do quarto, volta até ele. - Ah, eu havia esquecido disto. - Deu a ele uma correte de ouro.
- O que é isso?
- O mendigo que te salvou disse que te pertencia.
- Nossa!
- Agora descanse, está bem?
- Irei fazer isso. - Concorda o rapaz.
- Não tema o dia de amanha, esse descanso era necessário. As vezes, quem te protege, pode aparecer de diversas formas. Boa sorte na sua jornada...
A enfermeira sai do quarto, antes de fechar a porta, olha para Andrew, sorrir e pisca o olho, em seguida desaparece no corredor, ele sorrir, balança a cabeça positivamente e diz baixinho:
- Obrigado meu anjo! Honrarei cada segundo que me presenteou...

FIM!





sexta-feira, 17 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ
Por Jair Nepomuceno
Parte 9

Andrew fez várias ligações telefônicas, em uma delas conseguiu localizar Telvis, um antigo amigo que hoje se devota a Cruz Vermelha, conversaram por quase uma hora, também entrou em contato com outro conhecido, esse, por sua vez, era voluntário da organização humanitária Médicos sem Fronteiras. Passou horas conversando com pessoas, assim como ele, que procuravam ajudar os necessitados, isso o fez bem, tanto que acabou se atrasando para o encontro com Mellisa, ao chegar na casa de sua ex-mulher a encontrou da forma que Zel lhe dissera, muito receptiva.
- Oi. - Saldou a Bonita jovem, dona de um sorriso cativante e olhos negros da mesma cor de seus longos cabelos, o abraçou calorosamente. - Pensei que não viesse mais!
- Me desculpe, tive que fazer algo antes.
- Andrew! - gritou Alissia correndo ao seu encontro, ele a abraçou, beijou-lhe a testa branca.
- Oi meu amor! - Disse o rapaz carinhosamente enquanto a colocava no colo.
- Você veio pra ficar aqui? - Indagou a criança.
- Não querida! Vim só fazer uma visita para vocês. - Colocou a mão no bolso e pegou um pequeno presente, deu a menina. - Tome. É para você! Espero que goste.
A menina desceu de seus braços e rasgou o papel vermelho que envolvia o objeto, era um par de brincos de ouro em forma de fadinha, seus olhos brilharam!
- Põe em mim mamãe, põe em mim mamãe! - Pulava em frenesi.
- Como se diz? - Perguntou Mellisa segurando o par de brincos em sua mão.
- Obrigado Andrew! - Ela o abraçou e o fez se abaixar, então beijou-lhe o rosto.
- Você merece! Sua mãe me contou que é a melhor da classe.
- Sou sim.
- Alissia. - Disse a Jovem bonita com veemência. - Depois eu coloco os brincos em você. Agora preciso conversar com Andrew. Vá fazer o seu dever de casa.
A criança concordou, antes de sair agradeceu mais uma vez, deu-lhe outro beijo e subiu as escadas correndo em direção ao seu quarto.
- Ela está linda! - Disse o rapaz.
- Obrigado. - Respondeu a mãe.
- E você, como está?
- Estou bem. Venha, vamos para a copa. Quer beber alguma coisa?
- Não, obrigado. Talvez água.
Mellisa pega uma jarra com água e gelo, senta-se de frente para Andrew, os dois se olham e um sorriso estrangulado se anuncia, era notório o desconforto, mas a necessidade de estarem ali, frente a frente, impulsionava-os a continuar, tentaram quebrar o gelo com um sorriso mais aberto, até que ela arrisca a primeira fala.
- Fiquei sabendo sobre o despejo. Sinto muito, Andrew.
- Eu já esperava.
- Para onde foi?
- Para um quitinete. Lá tenho tudo de que preciso.
- Entendo.
- Eu fiz um bazar, vendi quase tudo. Acho que vendi algumas coisas que lhe pertenciam junto com as minhas tranqueiras, então acho que devo dar algum dinheiro para você.
- Não me deve nada. Não havia nada lá que eu quisesse ter trazido, portanto, abandonei por vontade própria. O mais importante lá, era você. O resto não passam de objetos.
- Mel. - Ele baixa a cabeça e aperta o copo com água entre as mãos. - Posso chamá-la de Mel?
- Claro.
- Na verdade não vim aqui para falar sobre o bazar. Estou aqui para te pedir perdão!
- Perdão por quê?
- Por tê-la feito sofrer em silêncio. Juro que nunca quis machucá-la.
- Do que você está falando?
- De tudo, Mel. Mas agora, você encontrará a felicidade que havia perdido enquanto esteve ao lado daquele marginal e também quando esteve ao meu lado. Sei que está namorando com outra pessoa.
Mellisa engoliu a seco, será que ele a estava seguindo? Pensou nessa possibilidade já que não havia contado a ninguém, nem a Cristine.
- Olhe Andrew, sinceramente...
- Não vim aqui para tratar desse assunto Mel, você é livre para namorar com quem quiser. - Andrew a interrompeu, depois continuou. - Vim aqui pedir o seu perdão, preciso saber que você não guarda nenhuma mágoa. Eu fui cego, egoísta, mas fui assim inconscientemente, não o fiz seguro do que eu estava realmente fazendo.
- Oh Andrew! Por favor não faz isso comigo! Não precisa pedir perdão. Você se doou para o bem de Alissia e de mim. Nós somos falhos, todo nós. Você não me obrigou a nada. O que aconteceu, aconteceu, e eu também fui conivente. O fim se deu porque relacionamentos acabam, a vida é assim.
- Você se sentia torturada toda noite quando tinha que ir para cama e me encontrar lá. Por que Mel, Por que não me disse nada?
- Como você chegou a essas conclusões? - Os olhos da linda jovem lacrimejaram.
- Você certamente não acreditaria se eu lhe contasse, mas isso não importa agora.
- Importa para mim! Olhe. Sou eternamente grata a você.
- Um amigo me falou uma frase e eu vou repetir a você. '' Tu era escrava da gratidão.'' Nunca houve amor de homem-mulher. Eu sem querer, a sufoquei. A sua conivência só existiu por causa da gratidão.
Mellisa o abraça aos prantos, suas lágrimas molham a camisa azul de Andrew, ele a afasta e beija-lhe a testa, passa as mãos embaixo de seus olhos no intuito de enxugar-lhe as lágrimas, ela ainda em choro fala-lhe em voz penosa.
- Me perdoe, Andrew! Imagino o quão mal está se sentindo agora.
- Não há nada para se perdoar, Mel. Não de sua parte. Eu sou a personagem errada nesta triste história.
- Quero te dizer uma coisa, e talvez não mude nada, mas é com muita sinceridade. Você foi a pessoa mais gentil, humana e solidária que eu tive a honra de conhecer. Não importa o que você acha que me aconteceu, porque nada, absolutamente nada, vai mudar o que sinto por você. Eu te amo, Andrew! Eu queria muito poder amá-lo não só da forma como eu te amo, eu queria poder te amar da forma que você merece!
O jovem baixa a cabeça, seus olhos ficaram marejados, com coragem elevou o seu olhar para os olhos negros de Mellisa e se entregou.
- Eu nunca em toda a minha vida amei alguém como te amei. Não existiu um só dia, que eu não contasse os minutos para acabar o expediente para que a felicidade de reencontrá-la me dominasse, pois o amor nos proporciona esses momentos, e nos remete muitas vezes a atitudes no melhor estilo adolescente. Sei o que fiz, e fico feliz que eu tenha o teu perdão. Esses dias foram terríveis, porque a tua ausência era a ausência da minha alma, porque a minha alma se reluzia pelo combustível do teu amor. Obrigado. Com você me tornei uma pessoa mais feliz, e mesmo sem a tua cumplicidade, eu cresci como ser humano. Era isso que eu tinha a te dizer.
Mellisa chora copiosamente, o beija outra vez, desta vez em seus lábios, passa as mãos carinhosamente em seu rosto.
- Eu que te agradeço, Andrew!
- Preciso ir.
- Volta a nos visitar no fim de semana?
- Não. Não haverá outro encontro.
Melissa se assusta.
- Por que?
- Porque amanha estarei embarcando para a Noruega, sou voluntário da Cruz Vermelha.
- Aqui também tem sede da Crus Vermelha!
- Eu sei.
- Não faça isso!
- Adeus Mellisa! Te desejo muita felicidade, de coração. 
O rapaz se despede outra vez, ela tenta beijar-lhe os lábios como uma ultima despedida, mas ele evita discretamente o encontro de seus lábios com o dela, em seguida segue para a rua, Mellisa o ver pela ultima vez dobrando a esquina,..

CONTINUA...

quarta-feira, 15 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ
Por Jair Nepomuceno
Parte 8

Andrew compreendeu que aquela a quem chamava carinhosamente de Mel, definitivamente não estava mais com ele em seus planos, uma sensação de perda se apoderou dele, afinal, mesmo improvável, ele esperançava tê-la novamente em seus braços, alimentava pois, esse ideia de forma irracional levando em conta tudo que envolveu a separação e a dificuldade de conseguir ao menos falar com ela após o término.
O dia seguinte após o estranho encontro com aquele esmoler o deixou muito deprimido, não queria aceitar que outro, senão ele, a tocasse, a beijasse e, principalmente a fizesse feliz, o amargo da perda de Mellisa remetia a uma ideia de que o amor não passou de platônico, e imaginar isso o machucava mais ainda.
Estava sendo um tanto difícil digerir aquela nova informação, Andrew preferiu ficar sozinho, não quis atender os insistentes telefonemas de Cristine e nem de outros que nem ao menos importou-se em saber quem era, pegou a sua bike e foi ate o lago dos gansos, sentou-se no pequeno pier e ali ficou com um olhar perdido, a geografia era linda, parecia uma pintura na melhor inspiração do artista. Nem chegou a olhar para trás e falou subitamente:
- Você sabia não é?
- Sim. - Respondeu o outro que já se sentava ao seu lado.
- Então ela me deixou por outro pessoa?
- Não aprendeu nada do que conversamos, Andrew. Ela não o deixou por ninguém, embora você esteja querendo encontrar razões para justificar o fim do relacionamento. Não adianta tentar encontrar razões inexistentes.
- Ela está ou não está com outro?
- Vocês terminaram ha mais de sete meses. O novo relacionamento de Mellissa começou ha dois dias.
- Você acredita nisso?
- Você também acredita.
- Não Posso aceitar isso!
- Escute o que irei te dizer meu rapaz. O namorado dela, aproveitou o momento de fraqueza, os seres humanos são vulneráveis quando o assunto é sentimento. Ele deu a ela a atenção que Mellissa necessitava, e teve a habilidade de falar aquilo que ela queria ouvir. Trata-se de uma pessoa muito sensível e de caráter. Não é de hoje que ele a ia conquistando, mas a situação em si, não lhe era favorável porque sua ex-mulher não abria espaço para ele e para ninguém. Mas até você sabe que Mellisa nunca esqueceu completamente o grande amor da vida dela, aquele que está em um presídio. O novo namorado se parece com ele fisicamente, mas não tem nenhum de seus defeitos. Ela foi vítima de todo um contexto que não cabe aqui entrarmos em detalhe, porque isso envolveria coisas que não são relevantes para o seu conhecimento, já que tudo chegou ao fim.
Andrew olhou nos olhos de Zel.
- Você quer que eu faça o que? que eu aplauda? Que eu me ofereça como padrinho do futuro casamento deles?
- Eu te aconselho a ir procurá-la. Ela vai te perdoar.
- Ele vai me perdoar? - Gritou Andrew. - Ela me abandona, está com outro e eu que tenho que ser perdoado?
- Não era você quem sofria em silêncio. Por favor, meu rapaz. Aceite a responsabilidade, não ha mais nada além disso que te restou nessa história. Abra o seu coração e mostre a grandiosidade que está latente em você. Pois você é isso! Você é coração, quando parte para o uso da razão, se torna essa pessoa vulnerável e inconstante.
Andrew baixa a cabeça, enxuga as lágrimas coma  manga da blusa, se volta para Zel.
- Nem que eu quisesse fazer isso não seria possível. Ela nem atende as minhas ligações.
- Ela irá atender. Ela está pronta para esse digamos, confronto. E ela está receptiva a te ouvir.
- Será?
- Sim. Sabe o que ela está fazendo nesse exato momento? Podando o jardim, cuidando das rosas amarelas. Ela adora rosas amarelas. A estufa tem outras duas espécie que você não chegou a conhecer. Acho uma boa hora para apreciar a beleza das rosas. - Zel sorrir.
- Como você sabe dessas coisas?
- Telefone agora.
- Ta bom, vou te provar que você está errado. Ela nem vai atender a ligação. - Disse Andrew retirando o telefone do bolso, em seguida digitou os números, Zel acompanhava tudo tranquilamente, com um esboço de sorriso.
- Alô! - saldou a voz do outro lado. Imediatamente Andrew olhou para o amigo com olhos arregalados e um frio na barriga.
- Alô! - Respondeu.
- É você Andrew?
- Sim. - Disse com voz suave, suas mãos suaram, assim como a testa.
- Tudo bem com você?
- To seguindo. - Disse com voz tremula e pausada, quase gaguejando.
- Eu soube que aconteceu. Você teve que sair de la né? Foi morar em um quitinete.
- Foi. Como estão as rosas?
- As rosas?
- Sim. Você deve tá cuidado delas agora não é? 
- Nossa! como adivinhou? Está aqui próximo?
- Não, não! Estou no lago dos gansos. Foi só um palpite. - Ele vira-se Para Zel, mas o amigo o deixou só mais uma vez, ele não se admira mais dessas sumidas do estranho homem.
- Está em um lindo lugar não é?
- Preciso conversar com você. Seria possível?
- Claro. Eu ia te telefonar hoje. Preciso muito falar com você também.
- E Alissia, como está?
- Ótima! É a primeira da classe.
- Que bom saber disso!
- Mas e então? Quando você poderia vir?
- Você prefere em uma lanchonete, ou outro lugar?
- Prefiro que venha aqui na minha casa. Você não é nenhum estranho, Andrew. Alissia vai adorar vê-lo.
- Ok. Chego ai em duas horas. Pode ser?
- Sim. Hoje não irei trabalhar.
- Combinado então.
Andrew desliga o telefone, respira fundo, seu coração acelera, estava a poucas horas de se encontrar com aquela a quem doou o seu amor, isso seria complicado, mas em seu intimo, o jovem sabia que seria o certo a se fazer.

CONTINUA...

terça-feira, 14 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ
Por Jair Nepomuceno
Parte 7

Andrew acordou cedo, foi ao Parque Araras não para encontrar-se com Zel, afinal, os encontros como ele bem sabia eram imprevisíveis então decidiu não dar vazão a sua ansiedade por tal encontro, se dispôs em viver cada momento e aguardar o próximo passo que a vida lhe apresentaria. O jovem estava ali para se exercitar, correu por quase uma hora, ja se passavam das sete horas quando voltou para casa. 
Por volta das dez teve um breve encontro com Cristine, ela se dirigia para uma reunião e ele para o banco, queria resolver umas pendências em sua conta bancária, no percurso a pé eles conversaram.
- Sabia que Mellisa estava lá no mesmo restaurante que a gente?
- Ela estava? - Indagou a amiga. - Onde? nós não a vimos. Você a viu?
- Não.
- E como sabe que ela estava lá? - Cris balança a cabeça negativamente.
- Porque Zel me falou.
- Zel te falou?
- Sim.
-Quando?
- Ontem na igreja.
- Porra Andrew! - Esbravejou a jovem. - Tu tinha prometido que iria me telefonar.
- Eu tentei, eu juro! Mas o celular estava sem sinal. - Ele não quis dizer o detalhe em que o sinal havia voltado assim que Zel lhe informou, dizer isso, iria alimentar ainda mais os pensamentos da amiga que o seu conselheiro estranho não existia, cris nunca foi tão crédula quanto a essa personagem que insistia em visitar seu amigo.
- Ele chegou assim que eu saí? 
- Uns dez minutos depois, eu acho.
- Tu devia ter pedido o celular para alguém. Não tinha ninguém la que pudesse te emprestar?
- Tinha o padre. Ele estava ocupado escrevendo umas coisas em uma escrivaninha em um corredor próximo ao banheiro.
- Por que não pediu a ele o celular, ou se havia um telefone fixo no local?
- O que eu iria dizer a ele? Seria Padre, me empresta um telefone urgente pra eu ligar a uma amiga que acha que eu estou tendo alucinações, ela acha que sou louco. Deixa eu ligar para ela vir ate aqui e ver com os seus próprios olhos o fantasma que está conversando comigo?
- Por favor Andrew, sarcasmo nunca foi seu forte.
- Eu acho um tanto complicado tudo isso.
- Eu tive uma ideia. - A garota sorrir, continua. - Você vai convidá-lo para ir a sua casa jantar. você me avisa com antecedência. Ai eu e o George iremos antes e esperaremos vocês dois lá. O que achou?
- Achei que essa tua obsessão em querer saber se Zel existe ou não está começando a ficar ridículo.
- Você devia era me agradecer. Estou tentando te ajudar seu mal-agradecido!
- Desculpe. Vou tentar fazer isso.
- Estou atrasada para a reunião. Qualquer coisa me ligue.
Os dois se despedem, Andrew segue seu caminho, fez uma breve pausa no percurso, parou diante de uma vitrine, lá, estava exposto tacos de golfe e todos os acessórios para a pratica do esporte, ele era fanático por esse tio de jogo, estava ali compenetrado olhando os detalhes dos objetos e os preços quando alguém lhe toca o ombro, ele se vira rapidamente e se depara com um mendigo mau-cheiroso, cabelos duros, dentes cariados, usava um sobre tudo rasgado e um boné surrado.
- O que você quer? - Perguntou Andrew ainda assustado.
- O senhor teria uns trocados para me dar. Tenho fome!
O jovem rapaz mete a mão nos bolsos e entrega a ele várias moedas, tantas que daria para ele fazer um lanche.
- Valeu! - Disse o mendigo. - Tome. - Deu a Andrew uma correntinha quebrada, provavelmente do tipo banhada a ouro.
- O que é isso?
- Um presente por ter me dado dinheiro.
- Não, não precisa. Fique com ele e tente vender, sei lá. De repente você consegue mais alguns trocados.
- Não quer o meu presente, moço?
- Não é isso é que não dei dinheiro a você a troco de algo, se eu aceitar o seu presente, então não terei realmente ajudado você, entendeu? Agradeço imensamente, mas não precisa. Fique com ele.
O mendigo sorriu mostrando aquela arcada dentária sofrível, em seguida disse ao jovem.
- Você é um bom homem, Andrew!
O rapaz toma um susto, o estranho sabia o seu nome.
- Como sabe o meu nome?
- Sua corrente esta quebrada como essa que eu tentei te presentear, Mellisa está definitivamente doando a corrente inteira a outro que a faz sentir-se segura.
- Quem é você?
- Siga em frente, outra corrente firme e de ouro maciço o espera no fim do arco-iris!
Nesse momento passam vários estudantes entre os dois, em duas filas indianas, ele grita em vão chamando o estranho, mas quando o grupo de estudantes enfim passam com o professor atrás, ele percebe que o mendigo não estava mais lá, ao olhar para o chão encontra a correntinha quebrada que o estranho o havia presenteado, ele se baixa e pega a corrente, olha para todos os lados, seus olhos lacrimejam, ele se lembrou de Zel e associou aquele bizarro encontro ao que o outro estranho amigo lhe dissera no dia anterior. Melissa agora estava mais distante e inatingível...

CONTINUA...

domingo, 12 de abril de 2015

É com muito pesar que uso o meu blog hoje, não para escrever histórias fantásticas, mas para expressar minha tristeza e o meu luto. Maria Maura Aguiar, minha querida avó, a quem Deus agraciou com longevidade e deu a ela uma vida plena durante 102 anos bem vividos e que no dia de hoje a convocou para o reino dos céus. Fica a memória dessa guerreira, desse exemplo de mulher, esposa, mãe, avó e bisavó, todo o amor que devotou a família está eternizado em nossos corações.
Já sinto saudades...

sábado, 11 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ

Por Jair Nepomuceno

PARTE 6

O dia seguinte ao jantar se seguiu sem nenhum contratempo, até que Andrew recebe a notícia de que teria que pagar uma ação trabalhista ainda do tempo em que havia sido sócio com um amigo em uma empresa no ramo de rações para bovinos e caprinos, mais um problema para resolver sozinho, já que o seu amigo já havia falecido após um acidente de moto, mais um problema para somar-se aos outros que já o atormentavam.
Ele telefonou Para Cristine assim que foi notificado pelo advogado, de imediato a amiga se dispôs em ir onde ele estava, o convenceu a ir a igreja, ela disse que era onde sua mãe costumava leva-la todas as vezes que algum problema à afligia. Chegaram então a igreja matriz, de certo modo, o jovem sentiu uma paz que hà muito não sentia, a amiga permaneceu com ele por meia hora, depois se despediu, Andrew resolveu ficar ali mais um tempo, tentando convencer a Deus do imediatismo de seus problemas, Cristine foi embora pedindo que ele a telefonasse caso precisasse de algo, ela era assim, extremamente prestativa, uma mulher de boa índole e com atitudes quase sempre bem humanitárias.
Andrew estava de cabeça baixa, mergulhado em oração, quando o outro chegou ao seu lado.
- Quem bom vê-lo aqui, meu rapaz! 
Desta fez o jovem problemático se assustou.
- Que susto, Zel!
- Me desculpe, você estava concentrado e eu te atrapalhei, mas pode continuar.
No mesmo instante, Andrew se lembrou da promessa que havia feito a Cristine, meio que atabalhoado se levantou e disse ao estranho homem:
- Cara. Não saia daqui. Eu já ia me levantar para ir ao banheiro. Eu vou e volto. Pode me esperar? Preciso conversar com você,
Zel concordou com um aceno de cabeça sorrindo e o jovem saiu às pressas em busca do toalete, mas não para fazer necessidade fisiológica, o intuito era telefonar para Cristine para que ela fosse conhecer Zel como havia prometido, mas do que isso, seria a o momento perfeito para provar que não estava louco, que o entranho amigo existia.
Entrou enfim no banheiro, estava nervoso, suas mãos suavam, mas quando tentou telefonar para a amiga, percebeu que não havia sinal, ficou frustrado.
- Não acredito! Porra. Isso não tá acontecendo! Funciona, droga, funciona! - Tentou por cinco minutos sem sucesso, até que desistiu e retornou para onde Zel estava.
- E então, sente-se melhor? - Indagou o estranho amigo.
- Sim. - Respondeu imediatamente Andrew.
- Isso aqui é um templo apenas para quem se dispõe de fé, se a pessoa não tiver fé, o máximo que essa estrutura poderá ser é um exemplo de arquitetura neoclássica. Para tirar fotos é ideal, mas não para adorar ao criador. O que você é aqui dentro, Andrew? Um turista ou um fiel?
- Já não tenho tanta certeza como antes?
- Então você nunca teve certeza. Quando se tem fé, não se perde, pode até se revoltar com o criador por entender de forma errônea, é claro,  que ele é o culpado por todos os imprevistos, mas até na hora de julga-lo é preciso ter fé que ele realmente exista.
- Faz sentido. - Disse Andrew balançando a cabeça.
- A fé não se baseia naquilo que necessariamente podemos ver. Na verdade a fé só existe quando algo ainda é abstrato. Essa é a verdadeira fé. e através dela algumas coisas se solidificam.
-Mudando de assunto. Ontem eu estive em um restaurante com um casal de amigos. Precisava me distrair. Conversamos sobe muitas coisas. Inclusive sobre Mellisa.
- E ela estava lá.
- Lá onde?
- Onde você jantava com os seus amigos.
Andrew arregala os olhos.
- Eu não a vi!
- Nem poderia. Ela não entrou. Observou você por algum tempo, pela vidraça. Chegou a hesitar se entrava ou não, mas sentiu que o coração ainda não estava preparado para o reencontro.
- Ela te disse isso? Que esteve lá.
- Não. Eu a vi.
- Você estava lá?
- Claro. Por isso a vi.
- Você está me seguindo?
- Por que eu deveria segui-lo? Você é uma pessoa que conflita a sua humildade com a presunção. Você em determinados momentos oscila de forma negativa em atitudes e pensamentos, por essa razão acaba se equivocando e nesses momentos, pensa que as coisas giram em torno de ti.
- Você está enganado. Eu não sou assim.
- Quer que eu dê algum exemplo para ilustrar bem o que eu estou querendo dizer?
- Que exemplo?
- No seu departamento havia um jovem de descendência nipônica. Era um rapaz promissor, inteligente e criativo. Certo dia, ele te levou um projeto de um barco para um cliente Suíço, você já tinha feito o projeto, havia trabalhado duro. Mas o Projeto do garoto de olhos puxados se sobressaía ao teu. O que fizestes? O fez mudar o projeto de forma grosseira contra a vontade do rapaz. E depois corrigiu vários defeitos. O projeto dele acabou sendo aceito, mas o cliente só aceitou depois de suas ressalvas e do seu teatro para demonstrar que entendia de projetos navais. Isso foi podre, você premeditou o insucesso do garoto. E dois meses depois ele foi demitido.
Andrew ficou abismado, como ele sabia disso? Tentou justificar.
- Não o demiti. O projeto dele havia defeitos, não quis prejudica-lo.
- Não. Você não quis, mas teve parcela de culpa que resultou na demissão do rapaz. E sim, você sabia que o projeto, mesmo com pequenos defeitos era superior ao seu. 
- Cara quem você pensa que é? Quem é você? Como sabe dessas coisas? O que você é?
- Estamos aqui empenhados em algo mais importante que responder a essas perguntas. 
- Você nunca me diz nada. Sabia que já me disseram que você poderia ser um estelionatário?
- Presta atenção no que vou te dizer. É importante.
- Cara, não sei porque ainda te escuto. Mas diga lá. O que é?
- Amanha um estranho lhe dará algo, receba, mas o presente virá junto com o fel. Será um tanto inusitado. O que ele terá a oferecer é de suma importância para você e a continuidade de sua evolução como ser humano.
- Cara, não entendi nada. Quem é esse cara? O que ele vai me dar? Onde será isso?
- Tenha paciência, Andrew. Entenda que as coisas acontecem no tempo certo, dentro de um plano.
O rapaz se senta violentamente, estava confuso.
- Eu sinceramente não sei mais o que pensar sobre isso.
- Calma. As coisas ficarão nítidas para você. Creia em si. Lembre-se do presente e do fel, do estranho e do inusitado. 
- Tudo bem.
Zel se despede e quando estava saindo da igreja, para, olha para trás, depois de um sorriso, diz a Andrew.
- Pode usar o seu aparelho celular agora.
O jovem rapaz olha rapidamente para o aparelho e ver o sinal restabelecido, no lugar do assombro que isso poderia causar, ele apenas sorriu, balançando a cabeça de forma negativa, quando voltou o seu olhar para a saída do templo, Zel já havia partido. Andrew em seu pensamento, disse pra si. - O grande barato é não querer entender o fantástico. Vá com Deus Zel! 

CONTINUA...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ

Por Jair Nepomuceno
PARTE 5


O ultimo diálogo que Andrew teve com Zel mexeu muito com ele, saber que Mellissa sofria com o relacionamento de certa forma o fez sentir-se infeliz, ficou com peso na consciência, mas ao mesmo tempo deu a ele aquele sentimento que ela o enganou a respeito de tudo. Houve em seu íntimo o misto de arrependimento e de frustração, não conseguia perdoar sua ex-companheira por completo, mas o peso na consciência conflitava com o pouco de raiva que ainda nutria, ele não aceitava o fim, mas essas novas informações lhe jogava a uma enxurrada de indefinições sobre suas próprias certezas, estava ainda mais confuso com tudo aquilo.
Aquele dia, convidou Cristine e George para jantar no Instrauss Restô, um lugar aconchegante e de bom menu, local este, que ele se habituou em ir, principalmente com Mellisa, estava explodindo por dentro e desabafar agora poderia aliviar um pouco tudo aquilo que o estava maltratando.
Chegaram ao restaurante por volta das vinte horas, depois de escolherem seus pratos, começaram a dialogar.
- Descobri que Mellissa nunca me amou de verdade. Toda aquela felicidade que ela demonstrava era falso, usava uma máscara todo o tempo.
- Como você chegou a essa conclusão? - Perguntou Cristine.
- Você se lembra quando eu te falei do cara que me apareceu do nada falando coisas sobre mim e sobre Mellissa?
- Sim.
- Foi ele quem alertou-me a respeito disso.
- Meu Deus! - Cristine se mostra irritada. - Não acredito que você esteja dando ouvidos a uma pessoa que nunca havia visto antes, um completo estranho.
- Cara, não sei explicar, mas eu acredito nele.
- Você acredita naquilo que quer acreditar. - Continuou a amiga. - E em se tratando de Mellissa, você faz de tudo para nutrir esse sentimento de raiva atribuindo a ela coisas ruins que justifique o fim do relacionamento. Pelo amor de Deus, Andrew! Você é um cara inteligente. Acorde.
- Você não entende. Ele sabe coisas ao meu respeito que eu fico admirado. Ele fala com propriedade. Como alguém que eu nuca conversei antes poderia saber tanto sobre mim?
- Eu vi um documentário feito pela polícia. - Desta vez é George quem fala. - Que alguns pilantras conseguem pegar no lixo todas as informações de que precisa para ter vantagem sobre a vítima. Eles pegam informações detalhadas. 
- Não nesse caso George. - Fala Andrew balançando a cabeça negativamente. - O que ele sabe ao meu respeito não é possível de se encontrar em lixo. São coisas íntimas. Coisas sobre a minha personalidade. Coisas que ele só saberia se realmente fosse um amigo muito próximo, como Cristine, por exemplo.
- Ele pode ter dado a você a sugestão para você falar sobre si. - Insite George.
- Não entendi.
- Cara. As vezes o pilantra pode ter habilidade de sem que você perceba, te induzir a falar coisas sobre você mesmo. Depois as usa como se o conhecesse, quando na verdade a própria vítima que forneceu a ele os dados de sua vida pessoal, e isso inclui detalhes da personalidade.
- Não o Zel. Ele as vezes é irritante, porque nossos encontros parecem monólogos. Só ele fala.
- Nossos encontros? - Esbravejou Cristine. - Você tem se encontrado com esse estranho e  conversado sobre sua vida particular? Estou realmente surpresa e estupefata!
- Eu sei que parece estranho, mas eu acredito nele. E digo mais. Por alguma razão, eu desejo que ele venha conversar comigo, porque mesmo me falando as verdades que doem, eu me sinto bem em ouvi-lo.
- Ok. - Cristine entrelaça os dedos demonstrando inquietação. - Quero que você me apresente esse cara. Tem como chama-lo agora?
Andrew sorrir.
- Não tenho como chamá-lo. É sempre ele que vem até mim. Não sei onde ele mora, não tenho contato telefônico ou qualquer outro tipo.
- Como assim, ele vem até mim?
- É isso mesmo. Ele quem decide quando vir. Vem quando quer.
Cristine olha ara George com um olhar espantada, na hora pensou que o amigo estaria precisando de tratamento psiquiátrico, seu noivo compartilhou do mesmo pensamento.
- Me fale mais a respeito desses ''aparecimentos''.
- Eu conheço esse teu olhar. - Andrew aponta o dedo indicador em direção a Cristine.- Você acha que eu estou louco?
- Eu não disse isso.
- A forma como se expressou agora ficou claro para mim.
- Andrew. pensa aqui comigo. - Diz Cristine pausadamente ainda com as mãos juntas e o cotovelo apoiado sobre a mesa. - O cara aparece de repente, não é isso? Sabe coisas sobre você que só você poderia saber. Vai e volta sem que saiba quem realmente ele é.
- O que isso quer dizer? - Indagou Andrew.
- Meu amigo, você tem passado por problemas sérios. É uma carga muito pesada, muito mesmo. E isso pode perfeitamente ter afetado a sua forma de pensar, de agir. Essas coisas podem acontecer depois de certos traumas.
- Você adotou agora a psicologia? Não sabia que era psicóloga. - O jovem se irrita.
- Você não quer aceitar a separação e ha também os problemas financeiros, profissionais. Não preciso ser psicóloga para entender que essas coisas podem acontecer com nós seres humanos.
- Então você acha que ele é fruto da minha imaginação?
- Não to afirmando, mas quem sabe?
- Vou te contar uma coisa. Eu cheguei a pensar isso também, mas hoje a tarde, ele estava conversando comigo no Parque Araras e um homem que fazia caminhada passou e nos cumprimentou e conversou com ele. O homem era minha imaginação também?
- Eu prefiro pensar também na possibilidade de que o outro homem pode fazer parte do esquema. - Disse George.
- Que esquema, amor? - Indagou Cristine.
- De extorsão.
- Pô cara, tu viajou agora geral. - Andrew sorrir. - O que é isso? Me extorquir a troco de que? Estou fodido. O que  ele ganharia com isso?
- Andrew tem razão amor. - Cristine concorda.
- Eu não sei. Só acho que não devemos descartar possibilidades enquanto não chegamos a uma conclusiva. 
- Vamos fazer o seguinte. - Disse Cristine. - Quando você estiver com esse cara. Você me telefona, e ele nem precisa saber. Eu vou imediatamente ao seu encontro. Podemos fazer assim?
- Isso pode ser perigoso, amor. - Disse George. - Acho melhor não ir sozinha.
- É. não vá. Chame o corpo de bombeiros,a polícia,  o exército. - Ironiza Andrew. - Pelo amor de Deus George o que há com você hoje? Cheio de teorias malucas!
Cristine e até o próprio George sorriem, mas a amiga insiste na ideia.
- E então? Vai fazer o que te pedi?
- Tudo bem. Se isso te tranquiliza, quando Zel voltar a me procurar, se ele voltar, eu prometo que te telefono na mesma hora. Agora não quero falar sobre nada, vamos jantar, estou com fome. Esse papo sobre Mellissa e Zel já deu pra mim.
Cristine e George concordam, brindam com vinho branco e continuam o jantar, enquanto isso, do lado de fora do restaurante, alguém os observa na na penumbra e, não era Zel...

CONTINUA...


quinta-feira, 9 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ

Por Jair Nepomuceno

PARTE 4

Quatro dias se passaram desde o ultimo encontro entre Andrew e Zel, nesse curto período o jovem rapaz conseguiu fazer o seu bazar, foi um sucesso, vendeu tudo que foi possível, o que não conseguiu vender, doou a mesma comunidade carente que costumava ajudar com cestas básicas. 
Duas malas com roupas, dois pares de tênis Nike, um par de sapatos pretos e três álbuns fotográficos foi tudo que retaram de sua vida atual, fora isso, só lembranças, algumas um tanto ruim.
- Faturou bastante heim? - Disse Cristine, sua amiga inseparável e sempre disposta a ajuda-lo no que estivesse ao seu alcance.
- Sim! Foi melhor que o previsto! O que arrecadei da pra passar no minimo cinco meses sem aperto, já inclusive consegui um quitinete bem simpático entre a Rua Caravella e a Terceira Avenida. Separei também o dinheiro ara comprar trintas cestas básicas.
- Cara. Não acho que você deva doar cestas básicas agora. Você precisa poupar dinheiro até arrumar emprego. Eu acredito que as pessoas que costumam receber a sua ajuda, irão intender a sua situação.
- Não abro mão de ajuda-los. Tenho certeza plena que esse dinheiro das cestas não me fará falta.
- Tudo bem, você quem sabe, mas me diga, e o quitinete é legal mesmo?
- Sim. Uma sala, banheiro e um puxadinho que foi transformada em cozinha. Já tem frigobar, um fogãozinho de duas bocas, cama de casal e dois criados mudos. No momento é tudo de que preciso e o preço está dentro do orçamento.
- Eu ainda acho que você poderia poupar essa grana indo morar lá em casa por alguns meses.
- Já conversamos sobre isso, Cris. Não posso aceitar, só agradecer o seu convite. 
- Se você quer desta forma...
- A Mellisa sabe sobre o meu bazar?
- Cara, já te falei. Esqueça a Mellisa. Siga seu caminho.
- Só falei porque havia coisas dela que estava no bazar, acho que eu deveria dar algum dinheiro pra ela. Isso seria o Justo.
- Você está é arrumando pretextos para ir se encontrar com ela, admita isso. As coisas que ela deixou ara trás foram coisas que ela descartou, não tinha interesse. Se houvesse algo que realmente a interessasse, ela teria voltado para buscar.
- Descartou não é? Você tem razão, Cris. Ela descartou tudo que fazia parte do nosso relacionamento, incluindo a mim.
-Não vou ficar aqui falando sobre isso com você. Estou na minha hora.
- Eu também, o carro está chegando.
- Qual carro?
- O que eu aluguei para ir lá na comunidade carente deixar as cestas básicas.
- Entendi. Se cuida.
Os dois se despedem, Andrew teria um dia muito ocupado, iria fazer as doações, entregar a chave da casa e se mudar ara o quitinete, mas mesmo com diversas coisas a fazer, Melissa não saia de sua cabeça, e outra pessoa também povoava seus pensamentos, o estranho Zel. Quatro dias sem sua visita, apesar de toda a estranheza que envolvia os encontros com o homem misterioso, Andrew sentiu o incômodo desejo de reencontrá-lo, chegou a ir ao Parque Araras duas vezes nos últimos dias, mas nem sinal de Zel, por um momento achou que aquele encontro no cemitério teria sido a despedida.
Passavam das quatro da tarde, quando Andrew terminou tudo que havia se disposto a fazer naquele dia, mas desta vez não foi a ponte do rio dos anjos, preferiu sentar-se em um banco dentro do Parque para refletir sobre a sua vida, segurava uma garrafa com água mineral, e ouvia os cânticos dos pássaros, quando alguém sentou-se ao seu lado subitamente.
- Voltou as doações, heim? - Sim era Zel.
- É você? - Indagou Andrew de forma bem natural. - Nem me surpreende mais.
- Não vim aqui para surpreende-lo, meu amigo.
- Não tem como começar uma conversa com você sem fazer a pergunta de sempre, a mesma que você nunca me responde. Quem é você?
- Alguém que se importa com você. Não acha isso o suficiente?
- Melhor seria se eu soubesse de onde você veio. E outra coisa. Para de sumir de repente. Isso é chato. Por que faz essas coisas?
- O tempo é algo precioso, quando tudo que é para se dizer é ouvido, não há razões para prolongar o tempo. Acredite, rapaz, é preciso dar o momento da reflexão. 
- Isso é meio bizarro. Você desaparece como o mestre dos magos!
- Quem? - Sorriu Zel.
- Não sabe quem é mestre dos magos?
- Creio que não.
- Você nunca assistiu a ''Caverna do Dragão"? Não teve infância?
- Acredito que coisas mais importantes que merecem a minha atenção seja a causa de eu não conhecer o tal Mestre dos Magos. - Zel sorrir novamente.
No momento em que Andrew ia formular outra pergunta, eis que surge um homem aparentemente fazendo caminhada, deseja boa tarde aos dois e se direciona ao estranho amigo do rapaz.
- Tudo bem Zel? 
- Tudo sim. E você?
- Estou tentando completar uma lacuna vazia. - Respondeu o outro homem sem parar a caminhada.
- Ela vai entender. - Disse Zel serenamente. 
- Tomara que sim. - Responde o outro já desaparecendo na trilha por entre as árvores frondosas.
Andrew sorriu, olhou para o homem ao seu lado e disse:
- Cara, aquele homem te conhece!
- Sim!
- Por um momento eu pensei de verdade que você fosse um fantasma ou obra da minha imaginação! - Gargalhou em seguida. - Você também faz entradas e saídas triunfais para o seu amigo?
- Ele não se deixa enganar. - Disse Zel sorrindo.
Andrew ficou sério, sisudo por um instante e coçou o próprio queixo, olhou nos olhos azuis de Zel.
- Pode perguntar, Andrew. - Falou calmamente o estranho.
- Da ultima vez que nos encontramos, lá no cemitério. Você me disse algo que eu guardei.
- Do que se trata?
- Ao falar sobre minhas culpas, em um determinado momento você falou que Mellisa havia feito sacrifício pelo nosso relacionamento. O que quis dizer?
- O que realmente quer saber, Andrew?
- Ela estava comigo por sacrifício?
- De certa forma.
- Aquela vadia! Eu a ajudei de todas as formas. Ela foi espancada por seu ex-parceiro, um maldito drogado. Bandido covarde e cafetão. A deixou na rua, sem teto, sem nada, ela a filha dela. Eu fui a unica pessoa que a ajudou.
- Tente se conter ao usar adjetivos, rapaz.
- Não sou puritano, não sou polido. Não posso deixar de adjetiva-la.
- Ela estava escrava da gratidão.
- Como assim?
- Andrew, por favor. Entenda. O que você sente por ela é amor, ela também sempre te amou, mas não da mesma forma que você sempre desejou. Ela não compartilha e nunca compartilhou dos mesmos interesses que você. Era difícil para ela ir para a cama com você, incontáveis noites ela chorou sem que ninguém a afagasse. Ela fazia isso não por interesse, mas por gratidão. Ela sempre foi muito grata a tudo que fez por ela e consequentemente por sua filha. E te digo, meu amigo. Como é triste a condição de se doar sem querer, de se entregar sem sentimento, de estar escravizada pela gratidão.
Andrew ficou abismado, surpreso, e com a voz branda perguntou a Zel:
- Por que ela nunca me disse nada?
- Por que ela se sentia presa ao seu salvamento. Não, eu nunca vi nada a respeito de ''Caverna do Dragão'' e o tal ''Mestre dos Magos'' que você mencionou agora a pouco, mas conheço a história do Pequeno Príncipe e a célebre frase que faz parte de seu conjunto, '' Você é responsável por aquilo que cativas''. Conhece essa frase, Andrew?
O rapaz ficou sem palavras, mas tentou ainda se justificar.
- Eu nunca cobrei nada dela. Nunca a forcei a nada. Por isso não osso e não em sentirei culpado.
- Nem deve. Porque as torturas psicológicas que você aplicava nela diariamente era algo inconsciente, sim, uma pessoa abdicar de sua própria felicidade e de sua dignidade é uma das piores formas de tortura. Tente compreender.
Andrew chorou.
- Nunca imaginei isso nem de longe. Nos últimos dias de nosso relacionamento eu só conseguia acreditar que ela havia deixado de gostar de mim, mas não, ela nunca gostou. Isso é terrível até para se imaginar.
- Você está enganado, meu jovem. Ela te amou, tem admiração por você e está sofrendo muito com essa separação. A consciência dela pesa toneladas, seu sofrimento é do tamanho do sacrifício que fez.
- Que amor é esse?
- Não existe só uma forma de se amar alguém. Ela encontrou o dela antes mesmo de você assedia-la.
- Agora eu fiz assédio?
- Você investiu em um momento de fragilidade dela, não houve espaço e nem chance de haver negação e embora você não tenha feito as coisas premeditadas, no fundo sabia que a sua ajuda material poderia te ajudar no seu intuito.
- Devo procura-la?
- Deve seguir o seu coração, mas se arme de coerência e bom senso, são armas eficazes das pessoas de bem. Preciso ir.
- Não vai desaparecer?
- Vou seguir por aquela trilha. Chegou o momento da reflexão, Andrew. Não deixe passar.
Zel desaparece por entre as árvores como havia feito o homem que o conhecia pouco antes, mas Andrew não o segui com os olhos, preferiu debruçar os braços sobre os joelhos e tentar exorcizar seus demônios...

CONTINUA...

quarta-feira, 8 de abril de 2015

DE VOLTA OUTA VEZ

Por Jair Nepomuceno

PARTE 3

Andrew tomou um susto ao ver o homem escorado la lápide de sua mãe, essas chegadas repentinas daquela figura muito bem trajada em terno cinza-claro, gravata cinza-escuro, cabelos brancos em sua totalidade, e olhos tão azuis quanto o céu, o deixava intrigado.
- O que você é, um fantasma? - Indagou aos gritos o assustado rapaz.
- Você acredita em fantasmas, rapaz? - O outro sorriu.
- É que você aparece do nada, parece um espectro.
- Sei. E levando em consideração o local que estamos nesse momento, falar sobre coisas sobrenaturais é mesmo bem sugestivo, não acha?
- Cara, de uma vez por todas, quem é você? Qual o teu nome? 
- Pode me chamar de Zel.
- Zel? Que tipo de nome é esse?
- O tipo que fará com que você pare de me chamar por pronomes e, ao mesmo tempo, te dê essa segurança de saber que eu tenho um nome, já que me pergunta quem eu sou o tempo todo, quando na verdade, deveria tentar entender quem você é!
- Tu é estranho, Zel!
- Curioso você me chamar de estranho, já que não era eu que estava sobre um parapeito disposto a cometer algo irracional, com a ilusão até inocente de que alguma coisa poderia se resolver depois do fatídico.
As palavras de Zel era como espadas transpassando seu corpo e principalmente o seu orgulho, nada até agora que o estranho havia falado, estava enganado ao seu respeito, aquele homem sabia demais, saber o seu nome agora não respondia quem ele era e como sabia tanto.
- Cara, olhe. Nem vou poder te dar atenção, porque estou ocupado agora.
- Está Limpando o túmulo de sua mãe, Katherine. Uma pessoa muito devota a sua fé, religiosidade intensa, vivia também em caridade, uma grande mulher.
Andrew olhou rapidamente para Zel, se levantou ainda surpreso pelas palavras daquele estranho.
- Você conheceu a minha mãe?
- Sim, claro. Ela era assídua na pratica de ajudar aos outros, essa caridade que ela fazia com empenho e de coração acabou sendo perpetuada por você. Eu costumo dizer que a caridade é o complemento da fé, e isso incide na verdadeira aproximação a Deus! O que falta em você é fé como complemento.
- Você acha, senhor sabe-tudo?
- Acredito que aquilo que você faz seja de coração, mas não está ai nesse contexto a fé que engloba uma serie de coisas. E além disso, as atitudes são carvão para essa fornalha. Já parou para analisar seus atos até hoje, atitudes boas, ruins, obsoletas, fúteis? Os erros as vezes são importantes, pois se aprendem com eles, não com os acertos.
- Presta atenção Zel! - Mais uma vez ele se mostra irritado. - Deixa eu te contar um resumo do que andou acontecendo comigo e veja se eu tenho tempo para poesias. Eu era um grande executivo de uma empresa no ramo naval, eu amava o que eu fazia. Ganhava bem, estava feliz profissionalmente, até que um dia, houve lá um rombo, muita grana saiu de forma suja, ai aprontaram para mim. Jogaram provas e eu acabei sendo considerado culpado, eu, o único que era inocente. Perdi o meu emprego por justa causa. Mellissa, se separou de mim, menos de um mês depois, foi um nocaute, pois eu amava, o pior, foi que quando ele foi abandonada, eu estendi a mão e a tirei da merda que estava. Assumi inclusive a criação de Judith, a sua filhinha fruto de um amor bandido. A ingratidão dela, matou um pouco do que eu era. Todos os meus ''amigos'' se afastaram de mim, fui atropelado quando eu atravessava a rua, quase morri. E hoje pela manhã, recebi uma ordem de despejo. Não tenho para onde ir. Entendeu agora um pouco da minha ''magnífica'' vida?
- Você tem passado por problemas sérios é verdade todos oriundo por culpa sua, de ninguém mais.
- Como é que é? Você é louco?
- Você perdeu o seu emprego porque mesmo sabendo que os seus ''parceiros'' se tratava de gente de má-índole se manteve sempre ao lado deles. Mellissa se separou de você devido a sua pressão sobre ela, devido a tudo que você costumava jogar na cara dela. Estúpido e incompreensível, e não entendia o sacrifício e a honra que ela dispunha para manter o relacionamento. Você foi atropelado ao sair de um bar, completamente embriagado, entrou na frente daquele carro de forma estabanada, e o seu despejo até você estava aguardando, está desempregado há sete meses e não procurou outro emprego. Agora me mostre, onde existe ai nessa tua história de dor e sofrimento, outros culpados que não você mesmo.
Andrew se ajoelhou e chorou, seu ódio por tudo estava latente, queria encontrar culpados para diminuir a sua própria incompetência como profissional, como homem de família, como um homem de bem. Levantou-se a voltou a  apontar o dedo para o seu acusador.
- O que você quer? Sou uma pessoa ruim. Uma escória! Por que está perdendo o teu tempo vindo falar comigo? Você é o quê? Um demônio? Ou um feiticeiro desvairado?
- Você não é uma pessoa ruim. você está perdido. O ser humano tem muito disso, rapaz. Grandes pessoas passaram por grandes problemas, mas conseguiram se reerguer através da fé em si. Eu não estaria aqui conversando com você se não conhecesse o teu coração. Pessoas como você tem a fantasia de achar que tudo é imediatismo. Não é assim que a vida gira. Ninguém nesse mundo é mais importante que ninguém, não até que tomem para si a responsabilidade de servir, de amar, perpetuar as coisas boas, até pode se tornar melhor, podem ser algo grandioso devido as sua atitudes. Mas acredite, o amor, a fé e as atitudes, fazem do ser humano a criatura mais fascinante e mais importante no reino de tudo que existe, aos olhos do criador.
- O criador não reconhece as coisas que eu fiz? Como posso continuar a ajudar as pessoas que eu ajudava sem recursos? Não tenho dinheiro, não tenho nem casa.
- Não se abstenha de praticar o bem. Deus e suas obras, estão diretamente ligadas a fé. Tudo gira em torno da crença. Se você ousasse ter acesso as escrituras, saberia que que esse é a principal linha até o criador. Já ouviu falar sobre  ''o tempo de Deus''? Não se apegue ao imediatismo, não é assim que funciona. Quanto ao dinheiro, a casa, e outras coisas, tente se apegar no que você realmente é. Não nesse espectro que se transformou. As coisas acontecem, Andrew. Emprego, casa, carro,boas roupas, viagens. Essas coisas acontecem, mas para isso, você tem que se encontrar.
- Estou confuso Zel. - Andrew encosta a sua testa sobre o epitáfio da sua mãe, ao erguer, novamente não encontrou o conforto de Zel, ela não estava mais lá...


CONTINUA...

terça-feira, 7 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ

Por Jair Nepomuceno

PARTE 2

Andrew acordou pela manha devido a alguém batendo incansavelmente à sua porta, entre gritos que ecoavam pela vizinhança e os irritantes murros na estrutura de madeira, ele, porém, ignorou o chamamento, se deteve sobre a cama e a unica reação que teve foi cobrir os olhos com um lençol dobrado.
Finalmente a pessoa desiste e vai embora, mas nãos em antes empurrar um envelope por baixo da porta, o rapaz ainda deitado em sua cama, ouve o som do motor do carro rachando e sumir certamente ao descer a rua. Ele então cria coragem, se levanta e vai ate a cozinha, coloca água para ferver, ao voltar para o quarto percebe o envelope no chão, ao abri-lo ler a notificação que ele teria quinze dias para sair dali, não chegou a  surpreendê-lo, a hipoteca estava atrasada havia sete meses, os juros  impossíveis de serem pagos.
Já se passavam das dez da manha, quando ele montou em sua bike e se dirigiu pra o Parque Araras, seu destino era a mesma ponte do dia anterior, mas desta vez não estava indo lá com o intuito de dar cabo à sua própria vida, esperançava reencontrar aquele homem, mas no fundo, nem mesmo sabia o porquê.
Encostou a sua bike no parapeito e apoiou s cotovelos no concreto, ficou ali por quase meia hora até que o seu celular tocasse, era Cristine, a sua melhor e mais leal amiga.
- Alô! - Saldou o rapaz.
- Andrew! - Disse a voz rouca do outro lado. 
- Sim Cris!
- Onde você está?
- No Parque. Vim aqui Pra desopilar.
- Entendo. Passei agora a pouco na sua casa. O seu vizinho me disse que o viu sair.
- Não tenho mais casa, Cris. - Disse em voz melancólica.
- O que houve?
- Recebi a ordem de despejo. Tenho quinze dias para sair de lá.
- Que chato! O que você vai fazer?
- Farei um bazar, vou vender tudo que puder e alugar um quitinete.
- Se quiser, ode passar um tempo na minha casa.
- Para com isso! Eu agradeço, mas não seria legal. O que George iria pensar?
- George te conhece, E outra coisa, a casa é minha. Enquanto não casarmos, eu não posso dizer que também seja dele.
- Não Cris! O cara é seu noivo. Eu no lugar dele ficaria chateado.
- Chateado Por quê?
- Pensa um pouco.
- Você iria me atacar? Somos amigos, cara.
- Cris, de uma vez por todas. Não!  Eu agradeço de coração, mas prefiro fazer do meu jeito.
- O convite está feito, se mudar de ideia sabe onde eu moro.
- Você tem visto a Mellisa? - A voz do outro lado muda.
- Andrew, pelo amor de Deus! Esqueça a Mellissa! Já era. Parte pra outra.
- Ontem um cara conversou comigo, falou sobre ela. 
- Que cara?
- Não sei. Não disse o nome.
- O que ele falou para você?
- Que ela não me abandonou, e outras coisas mais. Estou achando que ela mandou esse cara vir falar comigo.
- Não creio. Não é o estilo de Mellissa!
- Então qual explicação?
- Vou dar uma sondada com cuidado, conversar com ela.
- Você faria isso?
- Claro. Preciso desligar agora.
Os dois se despedem e ele fica ali mais uma hora, depois resolve retornar pra casa, mas antes vai ao cemitério deixar flores e limpar a lápide de sua mãe, isso era algo que ele fazia duas vezes por mês, tinha a sua genitora como a pessoa mais importante de sua vida, foi duro pra ele perdê-la, mais duro ainda não poder estar presente nos momentos finais, um câncer a levou, e a partida dela, desestruturou o rapaz de forma avassaladora. A senhora Katharine sempre foi o orto seguro dele, era a pessoa que o controlava, que dava a ele o alivio das palavras certas nas horas certas, sem ser incoerente, isso nesse momento de sua vida estava lhe fazendo muita, mas muita falta.
O telefone toca novamente, era Cristine.
- Andrew!
- Oi Cris!
- Cara. Eu conversei com ela. A mulher está deprimida com toda a situação. Me disse que iria esperar a ''poeira baixar'' para te procurar. Perguntei a ela se alguém, algum amigo, lhe teria dito que falaria com você. Na hora ela negou e ainda disse que essa situação é um exemplo de que ninguém pode tomar a frente senão vocês dois. Que  não permitiria que outra pessoa fosse conversar com você a respeito dela. Me perguntou oque estava acontecendo, eu desconversei e disse que era só curiosidade minha.
- Ela está mentindo! É uma dissimulada!
- Andrew! Por favor! Você está sendo infantil. Mellissa Nunca foi dissimulada, e você sabe muito bem disso.
- Cris, não vou discutir com você. Estou aqui diante de Dona Katherine. Nos falamos outra hora.
Cristine sabia o que ele queria dizer, sabia o que ele estava fazendo naquele momento, respeitou de imediato e se despediu dizendo que se precisasse de qualquer coisa, que a procurasse, ele então desligou o telefone e voltou a sua atenção ara o que estava fazendo quando foi novamente surpreendido.
- Vejo que não quis tomar banho de rio hoje! - Era ele, o estranho voltou. ...


CONTINUA...





segunda-feira, 6 de abril de 2015

De volta outra vez

DE VOLTA OUTRA VEZ
PARTE 1
Ele estava ali, de pé sobre o parapeito da ponte sobre o rio dos anjos, rio este, que além da forte correnteza as inúmeras pedras lhe ornamentavam desde o leito até boca da próxima queda, uma pintura da natureza feita mais para apreciar que tentar vencer as suas águas escuras. Ele esta ali, a uma distância de 3 metros de altura entre seus pés e as águas gélidas do rio dos anjos, o que o levou até lá? O desejo de deixar tudo para trás, a forma que encontrou para descontinuar não só a própria vida, mas em seu pensamento, também descontinuar tudo de ruim que o assolava.
Foi justamente entre a coragem definitiva para pular e a hesitação, que alguém subitamente o indagou.
- Dia difícil não é?
- Fique onde está! - Gritou o rapaz suicida ainda surpreso com a presença daquele homem.
- Ou você pula?
- É isso ai. - Respondeu o assustado rapaz apontando o dedo indicador ao estranho.
- Mas você não veio aqui para fazer isto? Então a minha presença aqui é indiferente, a sua decisão já foi tomada.
- O que você quer?
- A questão não é o que eu quero, Andrew Philipe, mas o que você quer.
- Quem é você? Como sabe o meu nome?
- Sou alguém que ver em você uma pessoa atormentada e que está ai ha meia hora e não tem realmente certeza a respeito de nada.
- Eu sei muito bem o que eu quero.
- Então vá em frente!
- Quem é você? Veio aqui pra tentar me impedir de pular?
- Não posso impedi-lo. Apenas você pode fazê-lo.
- Vá embora! Não preciso de você. Não te conheço. Me deixe em paz!
- Paz? será que não é justamente isso que te falta? E quer saber? Você está ai até agora, porque existe uma esperança, e essa só pode se tornar realidade se você permanecer vivo. Essa dúvida sobre o que será após a sua morte te faz hesitar e te dar medo em prosseguir. Você é um covarde Andrew, sempre se acovardou perante os problemas e se fazer de vítima era a sua saída, mas as pessoas não acreditam mais em você e na forma patética em que se faz de frágil e injustiçado. Por isso não pulou, Andrew, por isso não creio que irá pular.
- Quem é você?
- Quem você procura? - Interpelou o estranho. - Mellissa não se renderá a nada, talvez ao sentimento de culpa pelo seu suicídio. Deixar esse fardo a ela, te faz ainda mais covarde como jamais fora.
- Ela terminou comigo! - Gritou Andrew. - E fez isso quando eu mais precisei dela. Esqueceu tudo que eu fiz por ela.
- Ela não esqueceu. Apenas seguiu em frente. Em breve chegará o dia que ficarão cara a cara para discutir a relação, mas isso, será doloroso, meu rapaz. Não se acovarde, Andrew, seja forte em prol de você próprio, pois a ferida que habita tua mente, não fará de ti um egoísta, mas um doente em busca da cura. Olhe para essas águas e tente enxergar nela a solução para alguma coisa.
Andrew olha atentamente para o rio escuro, se distrai e busca a compreensão, volta a sua atenção ao estranho, mas se surpreende em ver que o homem não estava mais lá. Desceu da ponte cuidadosamente, colocou as mãos na cintura e ficou olhando para a estrada, tentando ao mesmo tempo entender o que havia acontecido. Resolveu finalmente voltar para casa, montou em sua bike e o caminho até seu lar foi regrado a muitas lágrimas e incertezas...
CONTINUA...