DE VOLTA OUTRA VEZ
Por Jair Nepomuceno
Parte final
O dia seguinte foi amargo, mas ao mesmo tempo de redenção para Andrew, a conversa que teve com Mellisa foi muito proveitosa no que respeito a paz de espírito, mesmo com o coração dilacerado por ter a resposta final de que ela jamais voltaria a ser sua. Certas dores são como armaduras que servem como aprendizado para evitar futuras feridas, sua forma de pensar, de agir, estava passando por um momento de inconstância, de confusão, mas nesse momento, após todo o turbilhão que acontecera, ele poderia sentir que voltara ao território da razão.
Foi até o Parque Araras, ansiava em encontrar com seu misterioso amigo, estava na mesma ponte, com o corpo apoiado pelo cotovelos enquanto via as águas passarem rapidamente, como pressa, exatamente no mesmo lugar que conheceu Zel, mas, a situação agora era diferente.
- Olá, meu jovem! - Chegou como sempre de supetão, com aquela expressão serena de sempre.
- Zel! - Disse Andrew com um sorriso contido. - Quem bom ver você!
- Então, enfim libertou-se e suas amarguras, ficaram os problemas, mas esses se resolve com sanidade e com tempo.
- Sim. Confesso que me sinto muito melhor. Não serei hipócrita em dizer que estou bem, meu coração ainda clama por ela.
- Não há necessidade de hipocrisia entre nós. Sei o que sente por ela.
- Estou indo para a Noruega, viajarei em quatro dias, estou só regularizando algumas coisas, sabe? Não quero deixar pendências para trás, embora algumas ainda ficarão, mas vou resolvê-las mesmo que demore um pouco mais.
- Problemas são um constante na vida dos homens, meu rapaz. E são importantes. Os problemas surgem para retirar aquela falsa impressão que o ser humano é pleno no conceito de criatura, pois esse conforto de plenitude pode nublar, pode enganar e a pessoa não ter a noção da real condição a que os homens estão submetidos enquanto estiverem aqui, nessa aventura chamada vida.
- Você é sábio! Espero que possamos continuar com o nosso papo.
- Seria ótimo, mas isso não será possível.
Andrew é pego de surpresa, ficou uns segundos olhando para Zel antes de perguntar-lhe:
- Não será possível por quê?
- Porque a minha missão chegou ao fim. Meu tempo está acabando!
- Seu tempo?
- Sim.
Nesse momento um sorveteiro vem se aproximando, Andrew então o chama para comprar um picolé, enquanto compra o picolé, tenta entender o motivo de Zel não continuar conversando com ele.
- Não entendo o porque de sua ausência. Será que não podemos continuar conversando aqui até o meu embarque pra Noruega, pelo menos?
- Eu nem te conheço! você é louco ou algo assim? - Para a imensa surpresa do jovem, essa indagação partiu do sorveteiro, ele arregala os olhos e diz:
- Não estou falando com o senhor!
- Porra, outro louco!
Andrew vira-se para Zel imediatamente, o encontra com um sorriso contido, mesmo sabendo o que aquilo significava, ele insistiu com o sorveteiro.
- Você não está vendo outra pessoa aqui além de nós?
- Você ta brincando comigo cara? Ou fugiu de algum hospício? Me paga logo a porra do picolé, não tenho tempo a perder com drogados. E se tentar alguma gracinha, olha o que tenho aqui pra você. - O sorveteiro pega um tipo de porrete e segura firmemente em uma dãs mãos, a outra estenda espalmada esperando o dinheiro.
Andrew tenta sair daquela situação embaraçosa, inventa algo para que aquele homem se acalmasse e não o trata-se como um psicopata.
- Calma meu amigo. Eu sou professor de sociologia. O que estou fazendo aqui é só uma experiência sobre o comportamento humano. Não sou louco. Tome. - Ele paga o picolé. - Pode ficar com o troco.
O homem respira fundo, recebe o dinheiro, guarda o porrete e antes de partir deixa a sua fala.
- Cuidado com as coisas que faz. Se fosse outros tempos eu o teria colocado para dormir com uma porretada na cabeça! Obrigado por comprar o picolé.
Andrew espera o sorveteiro está bem longe para falar com Zel.
- Meu Deus! O que é você?
- Você entendeu o meu significado, rapaz. Não precisamos entrar no mérito agora.
- Se só eu posso te ver, como aquele cara te cumprimentou lá no parque? Você permitiu que ele o visse?
- Na verdade, foi ele quem permitiu que você o visse.
- Você é um tipo de fantasma!
Zel sorrir.
- Sei muito sobre o seu coração. Sei muito sobre coisas ao seu redor. Fantasmas são coisas diferentes, e depende muito da forma que a pessoa acredita nele. Muitas vezes, nossa mente é que limita o tamanho do nosso medo. O tamanho daquilo que queremos crê.
- Por que eu?
- Por que não você?
- Você esteve esses dias ao meu lado, conheceu meu íntimo, meus defeitos, minha aberrações, meus demônios. Valeu a pena?
- Foram por suas virtudes que vim resgatar o que você era.
- Mellisa agora está feliz. Mas eu desejei coisas ruins a ela, pelo simples fato dela não está comigo. Por que Zel, por que não podemos ficar com as pessoas que nos amam? Deveríamos escolher a quem amar. A vida não foi completamente justa comigo, pelo menos não até o presente momento.
- Meu jovem. Aquela a quem tem lealdade a você, sempre te amou, e não só como amigo. Desejou-te e percebeu que o seu amor era devotado a outra pessoa, nem isso a fez se afastar. Descobrimos o sentido do amor em atitudes como esta. Ela manteve o que sentia, mas alimentou outro tipo de amor e este, talvez seja o que faz mais sentido e o mais sublime. Então não olhe para a vida como juíza de seus problemas e que não lhe deu a oportunidade de escolha. Não é assim que as coisas funcionam.
Andrew ficou perplexo, seus olhos marejaram, e o entendimento se fez por completo.
- Cristine? - O rapaz perguntou.
- Será que ela não pensou como você? Será que não era desejo dela que o que sentia por você em segredo sumisse de seu coração? Ela tentou o exício desse sentimento, mas não obteve êxito. Então resolveu está próxima de você. Porque para ela, o simples fato de permanecer ao seu lado, já lhe rendia felicidade.
- Meu Deus! Eu, eu... Eu nunca percebi.
- Mas o novo companheiro deu a ela uma chance real de ter felicidade. E essa tentativa dele em dar a ela a felicidade que Cristine merecia, agraciou-a hoje com um fruto em seu ventre.
- Cristine está grávida? - Andrew se admira.
- Sim.
- Ela me conta tudo! Não me contou a respeito.
- Ela ainda não sabe, mas irá descobrir em alguns dias. E você vai respeitar esse tempo, não dirá nada a ela.
- Estou atônito!
- Voltando ao que dissês antes. Se pudéssemos escolher a quem amar, não haveria a magia verdadeira do amor. Seria mecânico, sem alma. Veja o exemplo de sua amiga e tente compreender que é assim que os planos do criador estão dispostos. A evolução dos homens é feita em caminhos tortuosos, muitas vezes sinistros e dolorosos, mas a recompensa está no decorrer da vereda e, ela é grande, desde que as virtudes sejam o guia nessa jornada, pois ela não acaba aqui, existem outros caminhos a seguir e esses, não estão no conhecimento humano.
- Por favor, não me deixe no meio desse caminho. Preciso de seus conselhos.
- Não te deixei no meio, te deixei direcionado.
- Mas eu quero conversar com você, sempre!
- Você pode continuar conversando comigo. Eu sempre estarei ouvindo, sou um bom ouvinte, acredite.
- Mas não escutarei a sua voz.
- Quem disse que não? Você a ouvirá sempre que precisar de um conselho, mas não será pelo ouvido. Escutará com o coração. Estarei sempre presente, sempre perto de você, embora você não me veja, será capaz de me sentir, e melhor, será capaz de me ouvir. Não me chamará mais de Zel, no lugar deste nome, me chamará de consciência.
- Você é um anjo?
- Serei aquilo que você precisar, sempre.
- O que será agora?
- Será exatamente como deveria ter sido. Você engajará na cruz vermelha como decidiu, você será aquilo que as pessoas precisarem que seja. Se dedicará em ajudar ao próximo como fazia antes, mas com mais amplitude. Seja um Zel para essas pessoas e você será testemunha da maior de todas as preferências de Deus, o amor.
- Qual o seu verdadeiro nome?
- Já tive vários nomes. Todos verdadeiros pronunciados por quem acreditava nele. Um nome é apenas uma denominação, e isso não é importante dependendo do que se segue.
- Qual o teu ultimo conselho.
- Não tenho mais nada a aconselhar. Vá. Estenda a tua solidariedade e cresça.
Zel coloca as mãos sobre os ombros de Andrew, ele sente uma paz profunda e um misto de alegria e tristeza, mas a consternação não era maior que a sensação de alívio, quando abre os olhos, Cristine estava ao seu lado, e ele sem entender o que havia acontecido pergunta a ela o que houve, e onde estava.
- Você caiu no rio das almas, sorte que um mendigo estava lá e te salvou!
Ele se senta imediatamente na cama e percebe que estava no hospital, sues pensamentos embaraçam, o que houve comigo? Será que eu pulei da ponte e esse tempo todo as coisas ocorreram?
- O que aconteceu, Andrew? Como você caiu no rio? - Indagou George.
- Eu não me lembro! - Se assusta o rapaz. - Meu Deus! Zel, era fruto de minha imaginação?
- Você quer nos matar de susto? - Perguntou uma voz suave, do outro lado do quarto. Era Mellisa.
- Mellisa! - Se admirou. - Você veio!
- Assim que Cristine me telefonou, vim o mais rápido que pude. Você está ai ha cinco dias. Os médicos disseram que você bateu com a cabeça em uma pedra, mas os exames mostraram que haveria oitenta porcento de chances de você não ficar com sequelas, talvez perda de memória curta.
Andrew segura a mão de Mellisa, chora, e diz.
- Eu tive um sonho. Nesse sonho, todos vocês estavam nele. E havia mais uma pessoa lá.
- Não era ao tal de Zel não né? - Indagou Cristine.
Andrew sorrir.
- Quem é Zel?
- O cara imaginário que você dizia te visitar. - Respondeu a amiga.
O rapaz não havia esquecido do amigo, na verdade estava tentando entender tudo aquilo.
- Cinco dias fiquei aqui?
- Sim. Mas não se preocupe, a sua viagem para Noruega está mantida. Seu amigo voltará na próxima semana, se você estiver de alta, poderá ir com ele. Tem certeza de que é isso mesmo que quer? - Indagou Cristine.
- Acho que sim. - Ele baixa a cabeça, e compreende que não foi sonho, Zel apareceu pra ele,se sentiu aliviado, mas isso queria dizer também que Mellisa só estava visitando-o.
- Pois bem - Disse Cristine. - Se você passar muito tempo fora, vai perder o nascimento do seu afilhado. - Seus olhos brilham! - Eu estou grávida!
Andrew a abraça calorosamente, dar os parabéns, e se compromete a retornar da Cruz vermelha para acompanhar o nascimento do filho da amiga. A enfermeira entra no quarto e pede para que todos se retirem, havia acabado a hora da visita, todos se despedem, quando a porta do quarto se abre, Andrew pôde ver um homem lá fora que esperava por Mellisa, depois do beijos entre eles, percebeu que era o tal que havia conquistado o coração dela.
- Tente descansar agora, provavelmente o médico amanha lhe dirá a previsão de alta. - A enfermeira informa a Andrew, se despede, mas quando ia saindo do quarto, volta até ele. - Ah, eu havia esquecido disto. - Deu a ele uma correte de ouro.
- O que é isso?
- O mendigo que te salvou disse que te pertencia.
- Nossa!
- Agora descanse, está bem?
- Irei fazer isso. - Concorda o rapaz.
- Não tema o dia de amanha, esse descanso era necessário. As vezes, quem te protege, pode aparecer de diversas formas. Boa sorte na sua jornada...
A enfermeira sai do quarto, antes de fechar a porta, olha para Andrew, sorrir e pisca o olho, em seguida desaparece no corredor, ele sorrir, balança a cabeça positivamente e diz baixinho:
- Obrigado meu anjo! Honrarei cada segundo que me presenteou...
FIM!