Hanna Fisio

domingo, 31 de maio de 2015

SERENITY

PARTE 8 - O DEPOENTE
Por Jair Nepomuceno

Quando o gato está acuado a tendência é atacar, somos como os felinos, mas usamos a sutileza para disfarçar os propósitos sombrios.

Roland era um mistério que nem os psiquiatras e talvez, nem ele próprio saberia descrever, a ausência daquilo que chamamos equilíbrio, o fez habitar a clausura do quarto andar, e entre tratamentos farmacológicos e outros nem tão convencionais, ele continuava ali, mantido isolado sem o direito do perdão.
O que Vinne presenciou causou um reboliço, Daryl apertou a sirene para avisar aos enfermeiros de plantão que algo estava errado, Roland então foi atendido quase que imediatamente e diagnosticado que aquilo se tratava de um ataque epilético, mas esse diagnóstico não convenceu ao novato psicólogo, embora discordasse preferiu não opinar, o fato é que o enclausurado acabou por ser atendido na enfermaria e novamente medicado antes de retornar ao seu isolamento.
O dia estava acabando, Vinne então resolveu tomar banho e ir dormir cedo, Daryl estava de plantão, e conforme havia prometido na reunião mais cedo, optou por dormir no estacionamento do Hospital, a manhã seguinte seria de indagações e estava também previsto que ele e outros funcionários iriam depor no Distrito Policial de Saint Sofhie.
Já se passava das nove da manha quando Daryl se preparava para ir depor, estava arrumando sua mochila no dormitório, era seu dia de folga, o Diretor aproveitou que o psicólogo estava sozinho naquele aposento e foi conversar com ele em particular.
- E então, como foi o plantão?
- Agora não, Antony. - Disse Daryl ainda de costas enquanto arrumava a sua mochila.
- Eu soube que você vai depor agora.
- É. Tem uma viatura me aguardando lá fora, portanto, não tenho tempo agora para conversar contigo.
- Será breve.
Daryl se vira para o gestor de Serenity, coça a barba rala e diz:
- Cara, na boa, eu estou exausto e ainda tenho que ir a porra do Distrito.
- Justamente sobre isso que vim falar-lhe!
- Falar o que?
- Você fala demais! É um idiota que adora polemizar. Acho melhor que meça as palavras que vai usar lá com a polícia! Não estique, não fale nada que possa comprometer nem a esse e nem aquele. Sua opinião e merda para mim são a mesma coisa. Então limite-se a falar o básico, assim tudo terminará bem!
Daryl sorrir, chega bem perto do Diretor, não pode fita-lo nos olhos de igual por igual, já que Antony era bem mais alto que ele.
- Cara. Eu vou falar aquilo que eu julgar certo. Se o que eu disser prejudicará ou atenuará alguém será a pura consequência. Não irei omitir nada do que penso ou do que sei. To cagando e andando para o que vai acontecer contigo ou com qualquer outro imbecil que você protege!
O Diretor muda a expressão, estava com raiva, aquele baixinho era arrogante.
- Você sabe muito bem como as coisas são. Quer jogar merda no ventilador? Ok. jogue, mas prepara a bunda, porque como dizem, "pode ter que aguentar muita areia".
Daryl nada responde, sai do dormitório em direção ao estacionamento onde uma viatura o aguardava, topou com Vinne no saguão, apenas o olhou e deu um sorriso de "canto e boca", o novato ficou observando-o até que entrasse no carro, estava confuso com tudo que havia acontecido no dia anterior, não entendia o que estava havendo, mas em seu íntimo, acreditava que Daryl pudesse estar envolvido direta ou indiretamente com os casos.
Doze minutos foi tempo em que a viatura levou para chegar até o Distrito, o depoente estava tranquilo, foi conduzido até a sala do investigador que também era delegado interino, um homem severo e que tinha como peculiaridade a sinceridade, isso já o havia colocado em situações complicadas no passado, agora no presente não era tão diferente.
- Sente-se! - Disse o Malcon.
- Vai demorar? - Indagou o psicólogo.
- Por que? Pretende ir a algum lugar?
- Estou cansado, saindo do plantão!
- Daryl fox! Eu estava ansioso em conhecê-lo! - Sorriu o policial.
- É?
- Você é a nona pessoa que pego o depoimento hoje!
- Que bom! - Ironiza o psicólogo.
- É bem cansativo, então, para evitar mais cansaço você só precisa me dizer o real motivo de ter assassinado Poll Austim.
Daryl descruza os braços.
- Como é que é?
- Não se faça de inocente. Confesse que eu vou assegurar uma pena mais branda.
- É realmente tentador a sua proposta, delegado! - Continua fazendo uso da ironia. - Mas infelizmente não vou poder ajuda-lo a diminuir a sua carga de investigação, uma vez que sou inocente e não havia qualquer razão que eu pudesse ter para assassinar aquele interno!
- Muito estranho você dizer isso!
- Estranho por quê?
- Porque das oito pessoas que vieram depor, sete mencionaram você e a sua desavença com a vitima às vésperas do assassinato! Popularidade não é o teu forte, garoto!
- Eu tive uma pequena discussão com Poll, mas não nas vésperas do seu assassinato, esse episódio aconteceu a mais de trinta dias! E digo mais, depois do incidente, eu fui a pessoa que ele mais se aproximou lá em Serenity,ficou apegado comigo.
- Isso não prova porra nenhuma! Você acha que prova? O ser humano é capaz de guardar mágoas. E você pelo que eu soube é um cara difícil de se manter relação. Você foi rotulado aqui pelos outros depoentes como um homem sem carisma, arrogante, prepotente e mal educado!
- Eu não quero aqui ensinar o senhor a trabalhar, mesmo porque, não sou policial, nunca fui e sou completamente leigo em relação a sua profissão. O que eu sei, aprendi em filmes. Mas eu acho que o assassino está querendo tirar o foco de cima dele, eu estou aqui como bode expiatório! Usaram um argumento ridículo dessa discussão e fizeram dela a peça fundamental para me incriminar! 
- Isso que você está fazendo nesse momento me parece forçar um álibi!
- Que motivo eu teria para matar um doente?
- Eu sei lá o que se passa na cabeça de um psicopata! Tu é o psicólogo aqui! Então me diga você, o que faz um demente, chegar ao ponto de cometer uma barbárie desse tipo? Por que você faria algo assim?
- O senhor pode usar esse seu joguete  em outras pessoas, comigo vai perder o seu tempo, Não sou do tipo que se intimida, então não gaste a sua saliva!
- Existe razão para que a investigação fosse direcionada a outra pessoa de la? Porque prepotência já vi que você tem bastante, vamos ver se tem inteligência e caráter!
Daryl estava se irritando, mas controlou a raiva.
- Pergunte ao Diretor o motivo de não ter câmeras de segurança justamente no local em que ocorreu o crime. Depois da reforma, ele nunca mais mandou reinstalar as câmeras. Pergunte ao Kelvim, o enfermeiro, porque ele estava fora do seu dia e horário de trabalho e na madrugada uma ex-paciente, a Sarah, gritou dizendo que ele a estava atacando! Investigue também Brenda, a recepcionista, ela andou dizendo que queria prender todos os malucos de Serenity, que odiava cada um deles! Sally, a enfermeira é outra que merece a sua atenção, ela já se deitou com praticamente todos os homens do Hospital, inclusive com pacientes! Já agrediu um ex-namorado e ele deu queixa dela, alegando que ela tentou mata-lo. Ha outra pessoa também suspeita, seu nome é Thifany, a psiquiatra, de antes de ontem para ontem, ela foi ate Serenity, durante a sua folga, entrou por volta de onze horas da noite e saiu com uma pasta quase duas da manha. Ela já responde a uma tentativa de homicídio, cometido há quatro anos!
- Como você sabe de tudo isso?
- Todos lá sabem! Inclusive o diretor, mas as pessoas que citei são justamente aquelas que ele defende, são protegidas dele! 
O delegado, coça o queixo, pede para que ele aguarde, sai da sala, retorna cerca de dez minutos depois, se senta abruptamente, Daryl chega a tomar um susto, estava de cabeça baixa, não o viu entrar.
- Presta atenção! - Diz Malcon. - Você está proibido de sair desta maldita cidade, está me ouvindo?
- Eu só sairei daqui a nove dias!
- Não! Você só sairá no fim das investigações!
- Mas isso vai me prejudicar!
- To pouco me fudendo! Você está expressamente proibido de sair de Saint Sofhie!
Daryl aperta com força o descansa-braço da cadeira que estava sentado, a raiva foi tanta que a vontade dele era esmurrar a cara daquele policial, se conteve mais uma vez.
- Isso é injustiça! Tenho um emprego que preciso me apresentar no prazo de dez dias!
- Um depoente me revelou que você teria dito que iria deixar uma surpresinha no hospital antes de sair. Vejo que já deixou a tal surpresa!
- Como posso ter deixado se eu ainda não sai?
- Então é verdade?
- Sim!
- E qual seria essa surpresa?
- Não é da sua conta!
Malcon desfere um soco sobre a mesa, aponta o dedo tão próximo que quase toca o nariz do depoente.
- Escute aqui sua aberração! Posso te mandar prender por desacato! Então irei repetir a pergunta e se você me responder novamente da mesma forma, além de ficar preso, vai precisar de um dentista!
Daryl viu que havia exagerado, tentou contornar, mas sem pedir desculpas.
- Eu falei isso no calor da discussão, se não me engano com o "Rolha". Mas na hora eu só queria dizer isso com a intenção de deixar merda na fonte que ele gosta tanto, esfregar merda no travesseiro dele. Algo do tipo!
O Delegado se senta novamente.
- Quantos anos você tem? Isso é ridículo! Parece coisa de adolescente! 
- Eu sei!
- Está dispensado! Lembre-se de ficar a disposição, posso ter que chamá-lo novamente!
Daryl concorda com um aceno e da graças a Deus por está indo embora dali, ele sabia que havia plantado uma pulga atrás da orelha de Malcon, mencionou pessoas, ficou receoso já que havia citado o nome de Antony, mas se sentia preparado para bater de frente com quem quer que fosse.

CONTINUA...


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