SERENITY
PARTE 7 - O TRIO
Por Jair Nepomuceno
Algumas vezes, a ignorância sobre algo pode trazer o beneficio da segurança e a ausência da loucura...
Daryl e Vinne desceram para o quarto andar, havia ali cerca de trinta leitos destinados a pessoas com doenças infecto-contagiosas, ao fundo, havia cinco salas cuja a utilidade era manter em isolamento total os internos mais perigosos, aqueles com acessos de fúria ou transtorno explosivo intermitente e ainda aqueles que devido ao seu estado mental, se auto-flagelava ou machucava violentamente a outros. Naquele quarto andar, três das cinco salas estavam ocupadas por pessoas com essa característica, quando Vinne chegou na primeira sala ela estava vazia, mas um olhar dentro dela, percebeu que as paredes era forradas por grossas camadas de um material que se parecia muito com almofadas, aquilo obviamente era uma maneira de reduzir o risco do interno se machucar jogando-se contra a mesma, havia também um colchão de espuma densa, a porta de aço possuía um tipo de janela com grandes, no tamanho de oitenta centímetros quadrados. Não existia vaso sanitário, isso indicava que as necessidades fisiológicas não era possível de realizar ali, então, levava-se a crer que os internos saiam da sala para a higiene e depois retornavam, todos os cinco quartos, ou celas, eram no mesmo padrão.
Logo abaixo das grades havia uma abertura e acoplado do lado de fora um tipo de mesinha, por ali, se necessário fosse, os isolados recebiam comida e água.
Vinne se aproximou da segunda cela, lá Daryl lhe apresentou um dos três enclausurados.
- Esse é Martin Goldberg. Quando tinha acesso de fúria atacava os enfermeiros e quem mais tivesse em seu caminho. Deu muito trabalho para ser removido para cá.
Morgan chega mais perto, mas a mão de Daryl o contém, não era seguro, o rapaz careca, com um olhar "esbugalhado" apertou duas barras de ferro da grade e encostou a testa olhando fixamente para Vinne.
- Ele está aqui faz tempo?
- Dois meses e meio! - Respondeu Daryl.
- Mas isso é muito tempo para se isolar alguém! A família dele não o visita?
- Deixa de ser anjinho! Tu só pode ser um caipira muito inocente. O que pode e o que não pode é o Doutor Antony quem decide. Leis aqui dentro são criadas de acordo com o momento, acredite, Serenity é um lugar impar, não pense que a sua passividade vai te ajudar em alguma coisa aqui dentro, porque não vai.
- Certo. E ele machucou alguém?
- Não fez nada demais, apenas arrancou a metade da orelha de um ex-enfermeiro daqui!
- Como ele fez isso?
- Com uma mordida! E em seguida pulou em cima do outro enfermeiro com o intuito de mordê-lo também! Foi contido depois de levar uma bordoada de cassetete na fuça! Doparam-no e desde esse dia ele está aqui.
- Mas quem decide o tempo e o tipo de contenção a um paciente é o psiquiatra!
- O Doutor Antony é psiquiatra seu animal!
- Ok! - Vinne se irrita. - Mas depois que ele veio para cá, devia ter sido avaliado por uma junta médica. O que estou entendendo aqui é que ele veio para cá e não fizeram nenhuma avaliação até hoje!
- Quer avalia-lo psicólogo? - Indagou com ironia Daryl, em seguida aponta para o isolado. - Vá. Converse com ele!
- Cara, só estou dizendo o que deveria ter sido feito. E não pense você que eu não vá questionar o Doutor Antony sobre esse caso, porque eu irei!
- Você é mais idiota que eu pensei! - Daryl sorrir, balança a cabeça negativamente.
- Idiota por quê? - Não obteve resposta, ficou com raiva, grita novamente, mas em um momento de distração é agarrado pelo pescoço por Martin, para a sua sorte a mão forte do esquizofrênico desliza e segura o seu jaleco, Vinne toma um susto e em desespero tenta se soltar, Daryl apenas observa de braços cruzados sem nada fazer, estava ali apenas como um mero espectador.
- Me ajuda porra! - Sem sucesso o pedido de socorro de Morgan, ele percebe que o outro psicólogo estava ignorado completamente seu infortúnio, então conseguiu se livrar sozinho, mas para isso se desfaz do jaleco, Martin carrega então aquela peça de roupa branca para dentro de sua cela como se fosse um troféu.- Seu filho da puta! Por que não fez nada? Olha isso! Ele pegou o meu jaleco novo!
- Entendeu agora o motivo do isolamento dele? - Vinne segura-o pelo colarinho, mas Daryl se livra da pegada do novato e o empurra contra a porta da cela, Morgan se desequilibra e cai ao chão. - Não seja tão apressadinho em ditar regras aqui em Serenity, seu babaca! Da próxima vez ajudo o maluco a te pegar!
- O que há de errado com você! - Grita Vinne se levantando do chão.
- Você vai penar mais do que eu aqui, moçoila! Quer sobreviver nessa porra de lugar? Preste atenção em tudo e principalmente, preste muita atenção no que eu disser. Se não quiser prestar atenção, foda-se, não vou esquentar a cabeça. Segura a porra dessa bandeira ridícula e a sustente, mas tome cuidado, muito cuidado com a sua bandeira, ele pode te levar para dentro de um buraco! Agora venha, vou te mostrar os outros dois.
Vinne limpa o suor de sua testa, usando as costas da mão, olha para dentro da cela e vê Martin Goldberg o fitando e sorrindo segurando o seu jaleco próximo do queixo, em seguida estende uma das mãos e chama o novato como se o quisesse junto dele ali dentro da clausura, Vinne franze a testa e um calafrio percorre-lhe a espinha, só tira os olhos do sorridente interno quando Daryl impacientemente grita por seu nome.
- Vem logo porra! O teu jaleco já era!
Morgan se aproxima de de seu "anfitrião" que estava parado de frente a outra cela, nesse outra havia um paciente sorridente, portador de heterocromia, um dos olhos na cor verde e o outro na castanho escuro, possuía cabelos espetados.
- Esse é Dennis Sandler!
- Ei, ei, ei! Quero sair daqui, tu me tira? - O pobre isolado pedia sua soltura enquanto passava a mão de forma carinhosa sobre a mão de Daryl que estava segurando uma das barras.
- Qual o problema dele?
- O problema é as iguarias que ele adora. e também gosta de escrever nomes.
- Não entendi!
- Ele adora comer barata, percevejo, mosca, tudo que tiver antena ou seis patinhas e que seja nojento! Além disso, tem o hábito de escrever nomes de pessoas em seu próprio corpo usando como caneta objetos tais como, pregos, lâminas, madeiras pontiagudas, coisas do tipo que possam fazê-lo sangrar!
- Esse se auto-flagela!
- Sim. Nunca machucou ninguém além dele mesmo!
- E ainda assim, o Diretor preferiu receitar o isolamento que um tratamento farmacológico e posteriormente um tratamento psíquico mais adequado, quem sabe usando a socialização para tal?
Daryl gargalha.
- Você é um figuraça, cara! Juro! Me lembra sabe quem? Eu mesmo, quando cheguei aqui sempre questionando isso ou aquilo, até que os dias me ensinaram e a experiência se tornou um árduo professor. Serenity é tudo aquilo que não se espera encontrar ou imaginar!
- O que você quer dizer com isso?
- Nada! - Daryl olha ara o rapaz sorridente que lhe acariciava a mão. - Ele não fica isolado aqui como os outros, ele toma banho de sol, vai até o salão de jogos sempre acompanhado de perto por dois funcionários. Depois retorna para cá.
- Certo. E quem é o terceiro?
Daryl faz um gesto com a cabeça o chamando e vai pra a ultima cela do corredor, lá ele faz a apresentação do outro interno.
- Te apresento Roland Connor!
Vinne se aproxima e vê a figura de um homem de certa forma tranquilo, estava sentado sobre o colchão, cabelo muito curto, olhos negros, devia ter algo entre trinta e trinta e cinco anos de idade.
- Por que ele está aqui?
- Pergunte a mim, novato! - Subitamente o interno fala, Morgan é pego de surpresa.
- Me desculpe! - Vinne tenta amenizar. - Pensei que estivesse sob efeito de medicação!
- Não me diga! - Roland se levanta e vai ate onde os dois psicólogos estão, mas não segura as grades, mantem uma distância da porta.
- Por que você está aqui?
- Eu ia te fazer a mesma pergunta! - O esquizofrênico continua. - Não está disposto a ir além?
- Ele está aqui porque agrediu e quase matou um outro interno. - Daryl quem fala.
- Aquilo foi legítima defesa!
- Também tentou matar a vadia da Sally!, infelizmente foi impedido.
- Não era ela que eu queria matar, mas o que não se pode ver!
- Como assim?
- Eu não acho que dois caras podem conversar comigo ao mesmo tempo. Ou um, ou outro.
Daryl sorrir novamente e diz:
- Irei deixar as meninas conversando por três minutos, vou tira água do joelho. - Ele se dirige a um banheiro que ficava do lado oposto do corredor.
- Não procure respostas onde a dor e o medo se perpetuam! - Disse Roland.
- Não entendi!
- Não queira!
- O que houve aqui, Roland?
- Você está sendo observado, garoto!
- Por quem?
- Por alguém que já esteve aqui. O assassino é extensão dele!
- Quem é o assassino?
- Vá embora enquanto pode. Serenity faz mal!
- Eu não posso ir embora!
Roland da um passo para trás seu olhos reviram, ele se contorce, da uma gargalhada sinistra, vira-se para Vinne e o novato pode perceber que algo em sua aparência havia mudado, Martin cai sobre o colchão e fica imóvel, Morgan fica gelado...
CONTINUA...
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