SERENITY
PARTE 5 - O PASSADO DE SERENITY
Por Jair Nepomuceno
O que é mais importante, um passado
obscuro que vem à tona, ou uma omissão que não deixa machucar? Em Serenity, as
duas coisas estão sempre conflitando.
Após o fim da conturbada reunião, Vinne
segue o diretor até a sua sala, ele estava confuso, desconcertado, não estava
acostumado a um teatro de horrores que acabara de presenciar, aquilo o frustrou
um pouco, não imaginava que um dia pudesse trabalhar em um lugar onde pessoas
se odiavam, aquilo o estava perturbando, até mais que o assassinato que havia
acontecido.
- Entre! - Disse Antony fechando a porta
em seguida. - Sente-se por favor!
Morgan se senta tentando relaxar, estava
sério, mas esboçou um "meio-sorriso".
- O que você acabou de presenciar não é
algo comum por aqui, acredite. - Antony se senta, oferece um cigarro ao jovem
que recusa com um aceno de cabeça. - Não se deixe perturbar com o que viu, esse
assassinato mexeu com todos aqui, inclusive comigo, mas eu tento manter a
aparência de que tudo está sob controle, entende?
- Acho que sim, Doutor!
- Daryl é um demente, quando chegou aqui
não era assim. Estou ate pensando em libera-lo antes dos dez dias, se você me
der sinal de que já pode assumir o posto, o mando embora. Ele é uma pessoa complicada.
- Eu não o rotularia como uma pessoa
complicada, na verdade o acho autentico. Pessoas com personalidade forte são em
geral mal compreendidas.
- Você não pode está falando serio Vinne,
pelo menos não em relação a Daryl.
- Só estou dizendo o que acho a respeito
de pessoas com a personalidade dele.
- Ele pode mudar o que é? Como eu te
disse, ele não era assim quando chegou.
- Isso é algo que não tenho como avaliar,
eu teria que conversar com ele, mas sinceramente, não acredito que isso seja
algo que possa interessa-lo, já que ele está de malas prontas.
O diretor respira fundo, desvia o olhar
para outro canto da sala, em seguida volta a fitar os olhos de Vinne.
- Eu estou querendo passar logo por essa
tempestade, meu jovem, o Daryl e sua demência não me importa nem um pouco, hoje
ele não passa de um peso morto aqui em Serenity.
- Eu entendo, mas de verdade, não acho que
ele seja um ''peso morto".
- Pense o que quiser, só quero que você me
dê o aval de que está preparado, tudo bem?
-Sim senhor! - Respondeu Vinne se
levantando da confortável cadeira vermelha e apertando a mão do diretor.
- As suas malas já estão no seu
dormitório, Brenda cuidou disso. Sabe onde fica?
- Sim, acredito que sim.
-Ok. Bem-vindo, boa sorte e bom trabalho!
O novato sai da sala do diretor Antony, se
dirige até o saguão principal, encontrou o local mais tranquilo, não havia
policiais, apenas um enfermeiro,e duas recepcionistas, uma das duas chorava
copiosamente, era Brenda, provavelmente estava em prantos devido ao que Daryl
disse sobre ela. Vinne pensou em ir até lá e quem sabe tentar de alguma forma
consolá-la, mas desistiu, acabou indo para o jardim, sentou-se em um banco ao
lado da fonte e ficou lá pensando em tudo que havia presenciado, em como seria
a sua vida dali em diante, perdeu a noção do tempo, talvez houvesse passado uma
hora, ou quase isso.
Olhou para o hospital e vislumbrou os
andares, o sol não estava incidindo diretamente, mesmo assim fez careta devido
a claridade e o reflexo dos vidros das janelas, se deparou com um
menino no segundo andar, sim, com certeza estava lá, mas quando se virou para
olha-lo novamente não o viu mais, talvez ele estivesse em um dos quartos que
Daryl lhe havia dito que não era usado e que lá, poderia descansar as vezes,
tomou um susto quando alguém chegou subitamente.
- Você não deveria sentar nesse banco, eu
já te disse, Leonard tem ciumes dessa fonte! - Era Serenna.
- Me desculpe! - Respondeu Vinne
imediatamente já se colocando em pé, mas ela sorriu e pediu que ele ficasse
mais um pouco, nesse momento Daryl apareceu.
- Já se socializando, novato? Acredite, é
melhor se socializar com eles que com aquele monte de estrumes que você viu lá
no auditório!
Vinne sorriu.
- Para com isso, cara!
- To falando a verdade! - Insistiu Daryl.
- Eu não sabia que aqui havia crianças
internadas!
- E não há!
- Não? - Se admirou Vinne.
- Você deve ter visto algum visitante,
algumas crianças vem aqui visitar seus parentes.
- O que tem no segundo andar?
- O auditório, alguns quartos, uma sala de
reunião, e outra sala usada para guardar coisas, além da sala que fica os
quadros do Matt.
- O primeiro andar ficam os dormitórios
dos internos, certo?
- Sim. Divididos em masculinos e
femininos.
- O sexto andar fica o que?
Daryl, se senta no banco sob os protestos
de Serenna, ele no entanto a ignora, assim como fez Vinne, entrelaça os dedos e
diz:
- Cara, há três anos houve um incêndio
aqui em Serenity, o fogo começou no sexto andar, chegou a pegar parte do
quinto, mas os bombeiros conseguiram controlar as chamas. Nesse evento,
morreram quatros pessoas, três carbonizadas e outra intoxicada devido a fumaça.
O que morreu intoxicado na verdade foi um herói, se não fosse por ele, a
tragédia teria sido muito maior. O quarto dos internos era lá. Tem um busto
dele do lado direito na entrada do hospital.
- Nossa, que triste! Não sabia disso!
- Desde então o sexto andar estar
interditado, embora já tenham feito reformas lá.
- Em respeito aos que morreram, decidiram
interditar aquele andar?
- Mais ou menos.
Vinne estava interessado, curiosidade
sempre foi uma peculiaridade sua.
- Como assim, mais ou menos?
- Meu chapa. - Disse Daryl enquanto
Serenna se apoiava em seu ombro esquerdo. - Dois trabalhadores morreram durante
a reforma, um despencou do sexto andar e caiu ali, próximo a entrada da
lavanderia, o outro foi encontrado morto de forma inexplicável, não tinha
ferimentos, nem nada do tipo, os legistas deram como natural a causa da morte.
Imagina ai, novato. Um cara de vinte e nove anos, forte como um touro, dizem,
morrer de causas naturais em um lugar onde um dia antes um outro trabalhador
havia morrido devido a uma queda de seis andares.
- O que isso quer dizer?
- Quer dizer que aqui coisas estranhas
acontecem.
- Sei. E como você sabe disso tudo?
- Todo mundo sabe, seu idiota. Você iria
descobrir isso cedo ou tarde, se não por mim, por outro funcionário, por
Michael,por exemplo.
Vinne se vira novamente para os andares,
olha para o alto, Daryl toca-lhe o ombro e o chama para segui-lo afirmando que
teria que lhe mostrar onde ficava o refeitório e contar-lhe oque havia nos
demais andares.
Morgan ficou impressionado com a história
contada por seu ''anfitrião'', não sabia o que pensar, por um instante imaginou
que Daryl talvez estivesse indo embora devido a fatos ainda desconhecidos por
ele, mas que talvez pudesse ter ligação mais com as histórias de Serenity que
com o brutal assassinado de Poll, os próximos dias seriam interessantes, pensou
ele.
CONTINUA...
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