SERENITY
PARTE 4 - A REUNIÃO
Por Jair Nepomuceno
Quando a razão se perde, a emoção toma conta, mas por onde ir? As cinzas iremos, muitas vezes sem explicações para a partida...
Poll Austim era outro esquizofrênico, dias que antecederam o seu assassinato ele piorou, recaídas de insanidade mais frequentes e vê-lo tranquilo havia se tornado algo raro, os enfermeiros lhe aplicavam incontáveis injeções antipsicóticas, no geral resolvia por algum tempo, mas logo voltava a crise, estava obcecado em dizer que gente de outros lugares estava querendo mata-lo, mas era gente dali que ele tinha mais medo.
Poll teve múltiplas mutilações e morreu devido a elas, um crime hediondo com requintes de crueldade que poderia dar um roteiro para o melhor filme de suspense, no melhor estilo de Alfred Hitchcock, agora, todos os funcionários passaram a suspeitos, todos, menos um, Vinne e mesmo aqueles que não estavam presentes na noite macabra, não foram descartados pela policia, já que poderiam ter algum tipo de envolvimento secundário.
Doutor Antony já estava no auditório aguardando os funcionários para a reunião, seu semblante mostrava um cansaço incomum, ele sempre manteve altivez e as pessoas esperavam dele a austeridade que lhe era peculiar sem perder a fineza, mas o assassinato mexeu com todos de Serenity, e parece que abalou a estrutura do Diretor, inclusive. Ao seu lado, segurando o livro das atas de reuniões estava Brenda Lacaster, a feliz recepcionista gordinha.
- Agora que todos chegaram deixem-me apresentá-los Morgan Vinne, o novo psicólogo, se é que Daryl já não apresentou. - Disse Antony, continuou. - Ele irá substitui-lo.
Quase todos desejaram-no boas vindas, alguns mais próximos apertaram-lhe a mão.
- Bom. - Disse o Doutor Antony interrompendo os cumprimentos ao novato. - Que ele seja muito bem-vindo, suas notas em Princeton foram notáveis, ele veio para cá muito bem indicado. Esse é o primeiro assunto, o outro todos já devem imaginar o que seja, logicamente que não esperávamos algo tão sinistro acontecer aqui, mas infelizmente aconteceu. Peço a vocês que ajudem a policia no que for preciso, sejam sucintos, ao mesmo tempo disponíveis para o andamento das investigações, colaborem no que der para que possamos continuar com o nosso trabalho.
- Nós teremos que ir a delegacia, Doutor? - Indagou Jhonson Penkins, um rapaz afro-descendente que exercia a função de enfermeiro e também cuidava da parte elétrica do hospital.
- Creio que sim! - Respondeu o diretor. - O corpo de Poll será cremado amanha, tão logo seja liberado elas autoridades. Vamos retomar a normalidade aqui em Serenity, a partir do momento que sairmos dessa reunião, peço isso a vocês.
- Tu só pode ta de brincadeira! - Esbravejou Daryl. - Aqui nesse auditório tem um maldito assassino! Ele está aqui ouvindo tudo, deve ta com sede de sangue. Meu plantão é hoje porque eu havia trocado com Michael, mas nem fodendo eu durmo debaixo do mesmo teto que esse desgraçado!Irei dormir no meu carro, lá no estacionamento. Aqui, tirando o novato, todos são suspeitos, uns mais que outros!
- Você para mim é o maior de todos os suspeitos, seu cara-de-pau! - Gritou Kelvin Obbie, o enfermeiro. - Me lembro muito bem quando você gritou e quase bateu no Poll mês passado por causa de uma porra de um remédio, precisou do Michael intervir, senão você o agrediria.
Daryl não deixou barato.
- Seu escroto! Aquilo foi coisa de momento, nos últimos dias ele conversava comigo e eu me tornei uma das pessoas mais próximas a ele. Agora você já foi pego perambulando feito um maldito fantasma pelos corredores em horários suspeitos, como aquele dia em que a Sarah gritou afirmando que você a estava atacando!
- Seu debiloide! Ela estava tendo pesadelos! E aquele dia eu estava de plantão!
- O plantão era do Hariko, ele mesmo confirmou!
- Ele havia esquecido. Pergunte ao diretor! Ele falou que havia esquecido e veio trabalhar naquela noite por engano.
- Muito estranho isso! Hariko morria de medo de você. Quem é que sabe em quais condições ele foi obrigado a passar, para confirmar essa tua lorota? Pra mim você é o suspeito mais óbvio daqui, carinha!
- Você é um lixo! - Gritou Sally apontando o dedo indicador para Daryl, enquanto isso tudo acontecia, o Doutor Antony tentava acalmar os ânimos em vão.
- Eu sou lixo? Olha só quem fala! Tu errou o estabelecimento, achou que aqui fosse um prostíbulo! quero te dizer que aqui é um hospital. Depois do Kelvin, pra mim você é a mais suspeita, você e essa gorducha ali. - Apontou o dedo para para Brenda que se surpreendeu!
- Eu? - Indagou a recepcionista com um olhar de espanto.
- Sim, você mesma, sua sonsa! - Continuou Daryl. - Você me revelou que odiava os malucos daqui, que se pudesse amarrava todos em uma sala e jogava a chave fora. Você me disse isso, quero ver se tem coragem de negar!
Nesse momento a balburdia tomou conta do recinto, todos falavam ao mesmo tempo, trocavam insultos e acusações, precisou que Antony desse um murro sobre a mesa e gritasse mais alto, mandando que todos se calassem.
- Escultem todos! Essa reunião não é para encontrarmos suspeitos, isso é o trabalho da polícia, acho um absurdo a que ponto chegaram, principalmente você Daryl!
- Eu só me defendi de acusações e...
- Cala essa maldita boca! - Interrompe o Diretor a fala do psicólogo. - O que havia para ser dito já foi dito. Amanha será o crematório de Poll, eu acho que todos deveriam ir a cerimônia. Amanha a polícia irá chamar vocês para depor. Agora quero que todos saiam daqui e vão cuidar de seus afazeres. Não quero escutar mais nem um pio a respeito desse assunto. Espero que eu tenha sido claro! E você Vinne, por gentileza, venha a minha sala.
A reunião terminou com um clima ainda mais pesado que antes, as consequências das coisas que foram ditas, com certezas iriam transbordar, agora cada um iria buscar o seu álibi para libertar-se do peso da suspeita.
CONTINUA...
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