SERENITY
PARTE 6 - As paredes de Serenity
Por Jair Nepomuceno
A verdade muitas vezes deixa marcas e não necessariamente no corpo, já ouviu a frase, "As paredes têm ouvidos?"
O segundo andar de Serenity era mal dividido, além do auditório, da sala de reuniões, da outra sala gigante que servia como exposição para os quadros de Matt Trauser e da outra sala também enorme que abrigava coisas como se fosse um depósito improvisado, ainda existia por lá dois quartos que há muito não serviam de dormitório para nenhum interno, nem para os funcionários. Muitas vezes os funcionários acabavam indo dormir nesses aposentos, mas faziam isso sem que a direção tomasse conhecimento, inexplicavelmente esses dois quartos serviam para nada.
Daryl mostrou o terceiro andar ao novato, ali ficavam as máquinas hospitalares, e uma sala de emergência, no fim do imenso corredor, havia uma pequena capela, mas muito aconchegante, com capacidade para cinquenta pessoas, era lá que o Padre Pablo Cassilas celebrava as suas missas. O quarto andar ficava o isolamento, tanto de internos com doenças contagiosas quanto de internos que precisavam do isolamento para proteger aos outros e em alguns casos a si próprio, ali, naquele andar, não havia internos com doenças infecto-contagiosas, mas havia três internos que necessitavam do isolamento, mas Daryl não disse nada ao Vinne a respeito dos três que ali estavam, não achou que fosse o momento, não ainda.
O quinto andar era a sala de recreação, readaptação, e socialização, claro que alguns internos preferiam o imenso jardim de Serenity, mas havia os que gostavam de ficar ali, monitorados por enfermeiros, as famílias podiam compartilhar esses momentos, lá no quinto andar, se podia assistir televisão, desenhar, usar brinquedos para terapia ocupacional, havia outros brinquedos também, tabuleiros e um pequeno teatro de bonecos. no fim do corredor, improvisaram um teatro, era bem confortável, com capacidade para cento e vinte pessoas, o teatro tinha inclusive um bom camarim. No quinto andar também ficava a sala de fisioterapia, muito bem equipada, a fisioterapeuta Yrvem era responsável por essa parte de reabilitação motora, trabalhava junto com um auxiliar, Andy, o albino.
- Esse hospital é muito completo! - Admirou-se Vinne.
- Venha, vou te mostrar algo, vamos voltar ao quarto andar.
- Espere! - O novato segura o braço de Daryl. - Me mostre o sexto andar!
- Não há nada lá! - Disse o estressado psicólogo.
- Mas eu quero ver!
- Ta interditado, eu já te disse! O Elevador não vai até lá, e eu não vou subir escadas por que você é um maldito curioso!
- Eu irei sozinho então!
- Pra quê, criatura de Deus? Lá em Princeton não existe prédios de seis andares, seu caipira?
- Eu quero ver o sexto andar! Posso?
Nesse momento a conversa dos dois é interrompida por Yrvem, a fisioterapeuta que chamava por Daryl, ele se vira para o novato e diz:
- Ok. Vá indo lá, a gostosa ta me chamando, vou te esperar aqui, vê se não demora!
Vinne vai em direção das escadas, antes de subir rumo ao sexto andar, olha para trás e vê Daryl abraçando a linda jovem, de cabelos longos ruivos que lhe sorria abertamente, Morgan então decidido sobe as escadas para matar a sua curiosidade a respeito do sexto andar.
Não parecia que aquelas paredes já haviam sido tomadas por fogo, não havia qualquer resquício de que algum dia, um incêndio pudesse ter quase destruído aquelas estruturas, ele chega enfim ao sexto andar. Estava abandonado, mas muitas tralhas ficaram lá, provavelmente deixadas pela equipe de reforma, Vinne se deparou com vários baldes no corredor, sacos com um tipo de argamassa, e algumas ferramentas peculiares da construção civil, no primeiro quarto viu um tipo de arquivo, parecia abandonado, pastas ao chão, mesas empoeiradas, talvez o diretor tentou usar o sexto andar, mas por alguma razão, desistiu, essa era a impressão que o jovem estava tendo.
Encontrou um armário com algumas pastas, a janela lhe servia de luz, folheou algumas pastas, viu a foto de um garoto, estava um pouco desgastada, a colocou sobre o vidro da janela para vê-la melhor, mas um grito fino, seguido por um choro de criança o fez derrubar a pasta e a foto devido ao susto.
- Tem alguém ai? - Indagou ele, ainda com o coração acelerado devido ao susto. - Daryl é você? - Não houve resposta. - Daryl! Se for você pare de brincadeira!
O jovem saiu devagar da sala e foi até o corredor, lá no fim sob fraca luz, viu a silhueta de uma pessoa, na verdade, parecia de uma criança, Vinne grita:
- Quem está ai!
Uma mão toca-lhe ombro apertando-lhe, o novato da um grito e caiu ao chão, ao vira-se se depara com Daryl sorrindo.
- O que foi moçoila?
Vinne estava pálido, ofegante ainda sentado ao chão, vira-se para o fim do corredor no intuito de mostrar ao Daryl o que poderia ser uma criança, mas a tal silhueta não estava não estava mais lá.
- O que houve?
- Nada!
- Você tá mais pálido que um prostituta que tomou porrada!
- Que tipo de comparação é essa? - Indagou Vinne já se levantando do chão.
- Já fez a sua visitinha? Já encontrou o que procurava aqui?
- Eu não estava procurando nada!
- Sei. - Daryl balançou a cabeça em seguida da um leve tapa no rosto de Morgan. - Venha, quero te mostrar uma coisa no quarto andar.
Os dois descem as escadas, o coração de Vinne ainda estava acelerado, o que quer que fosse aquilo, sua mente estava confusa, não sabia em que pensar, mas tinha uma certeza, o sexto andar estava repleto de mistérios, pior que isso, as pessoas dali não estavam dispostas a contar-lhe, sua curiosidade o levou ali, para onde mais ele iria ser levado?
CONTINUA...
Nenhum comentário:
Postar um comentário