Hanna Fisio

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DE VOLTA OUTRA VEZ

Por Jair Nepomuceno

PARTE 4

Quatro dias se passaram desde o ultimo encontro entre Andrew e Zel, nesse curto período o jovem rapaz conseguiu fazer o seu bazar, foi um sucesso, vendeu tudo que foi possível, o que não conseguiu vender, doou a mesma comunidade carente que costumava ajudar com cestas básicas. 
Duas malas com roupas, dois pares de tênis Nike, um par de sapatos pretos e três álbuns fotográficos foi tudo que retaram de sua vida atual, fora isso, só lembranças, algumas um tanto ruim.
- Faturou bastante heim? - Disse Cristine, sua amiga inseparável e sempre disposta a ajuda-lo no que estivesse ao seu alcance.
- Sim! Foi melhor que o previsto! O que arrecadei da pra passar no minimo cinco meses sem aperto, já inclusive consegui um quitinete bem simpático entre a Rua Caravella e a Terceira Avenida. Separei também o dinheiro ara comprar trintas cestas básicas.
- Cara. Não acho que você deva doar cestas básicas agora. Você precisa poupar dinheiro até arrumar emprego. Eu acredito que as pessoas que costumam receber a sua ajuda, irão intender a sua situação.
- Não abro mão de ajuda-los. Tenho certeza plena que esse dinheiro das cestas não me fará falta.
- Tudo bem, você quem sabe, mas me diga, e o quitinete é legal mesmo?
- Sim. Uma sala, banheiro e um puxadinho que foi transformada em cozinha. Já tem frigobar, um fogãozinho de duas bocas, cama de casal e dois criados mudos. No momento é tudo de que preciso e o preço está dentro do orçamento.
- Eu ainda acho que você poderia poupar essa grana indo morar lá em casa por alguns meses.
- Já conversamos sobre isso, Cris. Não posso aceitar, só agradecer o seu convite. 
- Se você quer desta forma...
- A Mellisa sabe sobre o meu bazar?
- Cara, já te falei. Esqueça a Mellisa. Siga seu caminho.
- Só falei porque havia coisas dela que estava no bazar, acho que eu deveria dar algum dinheiro pra ela. Isso seria o Justo.
- Você está é arrumando pretextos para ir se encontrar com ela, admita isso. As coisas que ela deixou ara trás foram coisas que ela descartou, não tinha interesse. Se houvesse algo que realmente a interessasse, ela teria voltado para buscar.
- Descartou não é? Você tem razão, Cris. Ela descartou tudo que fazia parte do nosso relacionamento, incluindo a mim.
-Não vou ficar aqui falando sobre isso com você. Estou na minha hora.
- Eu também, o carro está chegando.
- Qual carro?
- O que eu aluguei para ir lá na comunidade carente deixar as cestas básicas.
- Entendi. Se cuida.
Os dois se despedem, Andrew teria um dia muito ocupado, iria fazer as doações, entregar a chave da casa e se mudar ara o quitinete, mas mesmo com diversas coisas a fazer, Melissa não saia de sua cabeça, e outra pessoa também povoava seus pensamentos, o estranho Zel. Quatro dias sem sua visita, apesar de toda a estranheza que envolvia os encontros com o homem misterioso, Andrew sentiu o incômodo desejo de reencontrá-lo, chegou a ir ao Parque Araras duas vezes nos últimos dias, mas nem sinal de Zel, por um momento achou que aquele encontro no cemitério teria sido a despedida.
Passavam das quatro da tarde, quando Andrew terminou tudo que havia se disposto a fazer naquele dia, mas desta vez não foi a ponte do rio dos anjos, preferiu sentar-se em um banco dentro do Parque para refletir sobre a sua vida, segurava uma garrafa com água mineral, e ouvia os cânticos dos pássaros, quando alguém sentou-se ao seu lado subitamente.
- Voltou as doações, heim? - Sim era Zel.
- É você? - Indagou Andrew de forma bem natural. - Nem me surpreende mais.
- Não vim aqui para surpreende-lo, meu amigo.
- Não tem como começar uma conversa com você sem fazer a pergunta de sempre, a mesma que você nunca me responde. Quem é você?
- Alguém que se importa com você. Não acha isso o suficiente?
- Melhor seria se eu soubesse de onde você veio. E outra coisa. Para de sumir de repente. Isso é chato. Por que faz essas coisas?
- O tempo é algo precioso, quando tudo que é para se dizer é ouvido, não há razões para prolongar o tempo. Acredite, rapaz, é preciso dar o momento da reflexão. 
- Isso é meio bizarro. Você desaparece como o mestre dos magos!
- Quem? - Sorriu Zel.
- Não sabe quem é mestre dos magos?
- Creio que não.
- Você nunca assistiu a ''Caverna do Dragão"? Não teve infância?
- Acredito que coisas mais importantes que merecem a minha atenção seja a causa de eu não conhecer o tal Mestre dos Magos. - Zel sorrir novamente.
No momento em que Andrew ia formular outra pergunta, eis que surge um homem aparentemente fazendo caminhada, deseja boa tarde aos dois e se direciona ao estranho amigo do rapaz.
- Tudo bem Zel? 
- Tudo sim. E você?
- Estou tentando completar uma lacuna vazia. - Respondeu o outro homem sem parar a caminhada.
- Ela vai entender. - Disse Zel serenamente. 
- Tomara que sim. - Responde o outro já desaparecendo na trilha por entre as árvores frondosas.
Andrew sorriu, olhou para o homem ao seu lado e disse:
- Cara, aquele homem te conhece!
- Sim!
- Por um momento eu pensei de verdade que você fosse um fantasma ou obra da minha imaginação! - Gargalhou em seguida. - Você também faz entradas e saídas triunfais para o seu amigo?
- Ele não se deixa enganar. - Disse Zel sorrindo.
Andrew ficou sério, sisudo por um instante e coçou o próprio queixo, olhou nos olhos azuis de Zel.
- Pode perguntar, Andrew. - Falou calmamente o estranho.
- Da ultima vez que nos encontramos, lá no cemitério. Você me disse algo que eu guardei.
- Do que se trata?
- Ao falar sobre minhas culpas, em um determinado momento você falou que Mellisa havia feito sacrifício pelo nosso relacionamento. O que quis dizer?
- O que realmente quer saber, Andrew?
- Ela estava comigo por sacrifício?
- De certa forma.
- Aquela vadia! Eu a ajudei de todas as formas. Ela foi espancada por seu ex-parceiro, um maldito drogado. Bandido covarde e cafetão. A deixou na rua, sem teto, sem nada, ela a filha dela. Eu fui a unica pessoa que a ajudou.
- Tente se conter ao usar adjetivos, rapaz.
- Não sou puritano, não sou polido. Não posso deixar de adjetiva-la.
- Ela estava escrava da gratidão.
- Como assim?
- Andrew, por favor. Entenda. O que você sente por ela é amor, ela também sempre te amou, mas não da mesma forma que você sempre desejou. Ela não compartilha e nunca compartilhou dos mesmos interesses que você. Era difícil para ela ir para a cama com você, incontáveis noites ela chorou sem que ninguém a afagasse. Ela fazia isso não por interesse, mas por gratidão. Ela sempre foi muito grata a tudo que fez por ela e consequentemente por sua filha. E te digo, meu amigo. Como é triste a condição de se doar sem querer, de se entregar sem sentimento, de estar escravizada pela gratidão.
Andrew ficou abismado, surpreso, e com a voz branda perguntou a Zel:
- Por que ela nunca me disse nada?
- Por que ela se sentia presa ao seu salvamento. Não, eu nunca vi nada a respeito de ''Caverna do Dragão'' e o tal ''Mestre dos Magos'' que você mencionou agora a pouco, mas conheço a história do Pequeno Príncipe e a célebre frase que faz parte de seu conjunto, '' Você é responsável por aquilo que cativas''. Conhece essa frase, Andrew?
O rapaz ficou sem palavras, mas tentou ainda se justificar.
- Eu nunca cobrei nada dela. Nunca a forcei a nada. Por isso não osso e não em sentirei culpado.
- Nem deve. Porque as torturas psicológicas que você aplicava nela diariamente era algo inconsciente, sim, uma pessoa abdicar de sua própria felicidade e de sua dignidade é uma das piores formas de tortura. Tente compreender.
Andrew chorou.
- Nunca imaginei isso nem de longe. Nos últimos dias de nosso relacionamento eu só conseguia acreditar que ela havia deixado de gostar de mim, mas não, ela nunca gostou. Isso é terrível até para se imaginar.
- Você está enganado, meu jovem. Ela te amou, tem admiração por você e está sofrendo muito com essa separação. A consciência dela pesa toneladas, seu sofrimento é do tamanho do sacrifício que fez.
- Que amor é esse?
- Não existe só uma forma de se amar alguém. Ela encontrou o dela antes mesmo de você assedia-la.
- Agora eu fiz assédio?
- Você investiu em um momento de fragilidade dela, não houve espaço e nem chance de haver negação e embora você não tenha feito as coisas premeditadas, no fundo sabia que a sua ajuda material poderia te ajudar no seu intuito.
- Devo procura-la?
- Deve seguir o seu coração, mas se arme de coerência e bom senso, são armas eficazes das pessoas de bem. Preciso ir.
- Não vai desaparecer?
- Vou seguir por aquela trilha. Chegou o momento da reflexão, Andrew. Não deixe passar.
Zel desaparece por entre as árvores como havia feito o homem que o conhecia pouco antes, mas Andrew não o segui com os olhos, preferiu debruçar os braços sobre os joelhos e tentar exorcizar seus demônios...

CONTINUA...

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