SERENITY
PARTE 23 - ROLAND CONNOR
Por Jair Nepomuceno
O que poderia ser mais misterioso que a mente humana? O que poderia ser mais perigoso que ela? A razão muitas vezes não tem a proporcionalidade daquilo que dentro se esconde.
Vinne foi ate o consultório três, estava se ajeitando na cadeira quando Mellissa abriu a porta de forma lenta e disse ao psicólogo que o Diretor havia mandado um dos internos para uma sessão, mas não era um interno qualquer, era Roland.
O novato se levanta rapidamente de sua cadeira ao ver o rosto risonho de Connor entrando em seu consultório, automaticamente veio a cabeça de Vinne que Antony teria feito aquilo de propósito, com o intuito de confrontá-lo.
- Eu não irei ficar aqui sozinho com Roland! - Protestou o psicólogo.
- Como assim?
- Só fico aqui com ele se um dos enfermeiros também ficar, caso contrário não ficarei. E pode dizer isso ao Diretor!
- Ele está liberado pelos psiquiatras para essa sessão, eu acredito que saibam o que estão fazendo. - disse Mellissa pausadamente
- Pra mim tanto faz o que os psiquiatras decidiram, então façamos o seguinte, coloque um deles aqui para fazer a sessão com esse psicótico!
- Isso é trabalho seu! - Rogger entra de supetão no consultório. - Faça o que o Diretor determinou e fim de papo!
Vinne não queria ceder e confrontou aquele homem.
- Não fico sozinho com Roland e nem você e nem o Doutor Antony vai me fazer mudar de ideia!
- Por que não quer ficar com ele sozinho? - Desta vez foi o Diretor que entrou no consultório.
- O que isso significa, Doutor? - Vinne cobra explicações, estava notoriamente com medo de que trancassem a porta com ele e Roland sozinhos.
- Significa que eu mandei Roland Connor para uma sessão, Michael está com outro interno, até onde eu sei, Serenity dispõe de dois psicólogos, um está ocupado e o outro tem que atender.
- Pode me demitir se quiser, mas sozinho com esse lunático eu não fico!
Roland continuava sorrindo diante daquele impasse, Mellissa permanecia em silêncio, Antony olha para Rogger, da um sorriso de canto de boca, volta o seu olhar para o assustado psicólogo.
- O que Connor tem que te assusta tanto?
- Para começar, ele deveria está enclausurado e não aqui fora!
- O que ele fez no passado já foi resolvido! - Insistiu o Diretor.
- Eu não irei entrar no mérito com o senhor, mas a minha decisão está tomada! Eu não fico sozinho com ele e ponto final! Se isso for um problema, está facil de resolver, basta me mandar embora que eu saio de Serenity agora mesmo!
Antony sorriu, olhou para os demais ainda com um semblante debochado, volta sua atenção para Vinne e diz:
- Não é para tanto! Eu entendo o seu receio. - O Diretor vira-se ara Rogger e dar a ordem. - Peça para Kelvin vir ate aqui agora!
- Ele não! - Protestou o psicólogo.
- Você está abusando da minha paciência, Vinne! - Gritou Antony. - Quer saber? Pegue a porra das suas tralhas e saia do meu hospital agora!
O Psicólogo ficou surpreso, pagou o preço de sua demissão, no fundo se arrependeu de ter confrontado o Diretor, quis voltar a trás, mas não lhe veio palavras para tentar contornar, a surpresa maior foi quando o interno resolveu participar daquele pequeno embate.
- Espere, senhor Doutor Antony! - Disse Roland. - Eu poderia sugerir algo?
- Sugerir? - Indagou o Diretor.
- Sim! - Insistiu o interno. - Sou eu o estopim dessa contenda, sinceramente não gosto do Michael, não me sinto confortável ao ponto de me abrir para ele. O doidinho do Daryl eu consigo fazer isso, mas ele não está aqui.
- E?
- E eu quero ter o direito de escolher desta vez quem irá me consultar, os psiquiatras disseram que eu preciso ser ouvido e preciso que respeitem algumas de minhas decisões, o senhor sabe disso, porque estava lá. Eu posso fazer essa sessão com o Vinne lá no Jardim, eu até prefiro isso! Detesto consultórios!
Antony coça o queixo, estava meio indeciso, mas Mellissa acabou intervindo.
-Eu acho uma boa ideia!
- Ok! - Disse prontamente o Diretor. - Desta vez será feito desta forma, mas que fique claro que as minhas ordens devem ser respeitadas, a próxima dessa, Vinne e você está na rua! Entendido?
o Psicólogo concorda com a um acenar de cabeça, ficou surpreso com a atitude de Roland, ainda estava desconfiado, mas gostou do que o interno fez, ainda mais porque não era o momento dele sair de Serenity.
Vinne, Mellissa e Roland seguem para o Jardim, chegando lá, o interno se senta em um banco branco de madeira embaixo de uma macieira enquanto o psicólogo puxa um pequeno banco rústico de madeira velha e arrasta para ficar de frente com o interno, Mellissa então deixa os dois sozinhos.
- De onde vem esse medo todo, meu rapaz? -Indagou Roland.
- Você faz parte do lado ruim de Serenity! - Respondeu o psicólogo.
- Fico extremamente chateado em ouvir isso, mas sinceramente, o pior aqui não sou eu! Nunca olhou para o seu próprio rabo, psicólogo? Você não é nenhum santo! É frio e calculista!
- De onde você me conhece para tecer esse tipo de comentário com tanta propriedade? Quer "jogar verde para colher maduro", como dizem!
O interno sorriu.
- Não é o meu estilo "jogar verde". Sou direto, aliás, não tenho nada a esconder por aqui, já você...
- Você não sabe nada sobre mim! É só um lunático que pensa que pode fazer tudo! Quem é você?
- Sou apenas um esquizofrênico, não é essa a denominação que me deram? Não é esse o diagnóstico?
- Está se fazendo de vitima, Roland? Não se ache tão esperto! Não sabe o que é ser vítima e também não tem noção do que é terror!
Roland se levanta subitamente, meio que por reflexo, Vinne faz o mesmo, e ainda da um passo atrás, ficou na defensiva, então o interno com um olhar raivoso desata a falar.
- Eu sou o terceiro filho de uma família de cinco irmãos, Um dia o meu pai chegou em casa e não parecia normal, estuprou a minha irmã de 13 anos, a unica filha, depois pegou um machado e matou ela e outros dois irmãos, eu consegui fugir para não ser morto, o meu outro irmão estava na escola, por isso não teve o mesmo fim dos demais. Eu tinha dezesseis anos, fiquei vagando pelas ruas por quase um ano, só retornei quando me contaram que o meu pai havia sido preso. O dia que cheguei em casa, soube que a minha mãe estava cega, porque ele jogou acido em seu rosto, ela nunca mais pode me ver, o pior era que ela adorava cor de seus olhos, eram azuis. Cinco dias depois do meu retorno, ela foi até o banheiro, encheu a banheira de água e entrou dentro, depois pegou o radio que estava ligado a uma tomada e o jogou dentro da banheira, se suicidou eletrocutada. Meu irmão enlouqueceu e hoje vive em um monastério, bem longe, no interior da Escócia, foi assim que ele decidiu exorcizar os seus demônios, eu escolhi outra forma.
Vinne ficou perplexo com aquele relato, isso explicava muita coisa, a curiosidade o fez seguir a diante, então perguntou ao interno:
- Qual outra forma?
- Meu pai acabou transferido para um hospital psiquiátrico em Utah por ordem da justiça, estava cumprindo pena como se fosse um doente mental. Eu então fui ate lá, o peguei e arranquei seus dois olhos, mordi o seu pescoço e bebi do seu sangue! Me senti muito bem! Fui julgado e condenado, passei oito anos cumprindo pena no presidio estadual de Utah, depois fui encaminhado para um hospital psiquiátrico em Minnesota, fiquei lá por dois anos, depois acabei vindo pra cá!
Vinne ouviu atentamente a história de Roland Connor, era fascinante e ao mesmo tempo assustador, fez um gesto para que o interno sentasse novamente, ele fez o mesmo.
- Cono você se sente agora?
- Me sinto no meio de uma vingança e de uma criatura cruel! Mas não posso ficar no meio, tenho que agir!
- Agir como?
- Escuta bem o que irei te dizer pela segunda vez e não direi a terceira! Você precisa de mim!
CONTINUA...
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