Hanna Fisio

domingo, 26 de julho de 2015

SERENITY

PARTE 22 - DE VOLTA AO JARDIM
Por Jair Nepomuceno

Surpresas ou imprevistos são necessários para uma avaliação a respeito de muitas certezas, para lapidar conceitos, ou simplesmente para nos testar como seres humanos.

Vinne preparou-se para voltar ao trabalho, mas hoje, sentia-se diferente, sentia-se ameaçado, as paredes de Serenity possuíam "ouvidos" todo dia algo novo o surpreendia, pensou por um momento em desistir de tudo e ir embora, mas entre uma lágrima e outra, decidiu seguir a diante.
Ao passar pelo saguão em direção ao jardim deparou-se com Antony, que sem demora foi logo interpelando o novato.
- Como Daryl estar?
- De certa forma bem tranquilo, me pediu pra dizer que depois de amanha ele virá para Serenity e encontrará com o senhor aqui.
- Certo!
- Ainda acho que ele deveria ter aberto um boletim de ocorrência, mas ele não quis.
- As coisas por aqui se resolvem de outra forma, garoto!
- Não pra mim! - Vinne mantem a postura. - Se fosse comigo processaria aquele brutamontes e exigiriam do hospital alguma punição a ele, de referência a demissão!
- Já conversamos sobre isso! Não tente ser um revolucionário aqui dentro, isso não é bom. Se está insatisfeito com isso ou com outra coisa, vá embora. Se quiser eu posso te demitir agora mesmo. Tenho muitos currículos em minha gaveta, alguns até com mais experiência que você, mais qualificado. A razão de eu ter te escolhido foi motivado por consideração ao seu tio.
Vinne fica sem palavras, não esperava aquela reação do Diretor, recuou mais uma vez.
- O senhor não entendeu a minha posição!
- Estou começando a entender! - Respondeu Antony com uma pequena dose de ironia, isso deixou o psicólogo preocupado.
- Doutor Antony, estou falando aqui de direitos. Se alguém me agride eu busco meus direitos! Isso não tem nada a ver com não gostar do hospital, apenas dando opinião a respeito do que aconteceu.
- Tudo bem, garoto! Vá trabalhar!
Vinne pegou sua prancheta e seguiu para o jardim, passou as costas da mão sobre a própria testa para limpar o suor causado pelo nervosismo, sua missão aos poucos estava sendo ameaçada, pelo menos era isso que ele estava sentindo, tentou agir de forma mais natural possível, mas em Serenity agir de forma natural é um exercício difícil e complicado, porque assim que entrou no jardim se deparou com a figura de Roland Connor.
- Oi psicólogo! - Cumprimentou o Esquizofrênico, Vinne congelou por alguns segundos.
- O que você faz aqui?
- Estou tomando meu banho de sol! - Respondeu Roland sorrindo.
- Quem te soltou da clausura? Quem? - Gritou VInne.
- O que está acontecendo aqui? - Era Rogger chegando rapidamente.
Vinne se vira para o recém-chegado e ainda bastante nervoso indaga:
- Quem libertou Roland? Ele não tem condição de se socializar com os demais!
- Não é você quem decide! - Disse Rogger com altivez.
- Por que você tem tanto medo de mim, garotinho? - Roland se aproxima de Vinne que por sua vez tenta mantê-lo afastado.
- Fique longe de mim! Eu sei muito bem o que você é capaz de fazer!
A discussão acaba chamando a atenção de outras pessoas, inclusive de Antony que vem rapidamente entender o que se passava.
- O que está havendo aqui?
- Doutor. - Disse Vinne ofegante, continuou. - Roland Connor não tem condições de ressocialização nesse momento. Acredite em mim, ele é um risco para os outros internos, para os funcionários e até a ele próprio!
- Ele foi avaliado por dois psiquiatras, pelo que eu entendo, quem não tem condições de diagnostica-lo é você! Além de inexperiente, não conhece Roland e a sua recuperação. Chegou agora e já está me causando problemas!
- Ele é dissimulado! Por Deus, acredite em mim!
- Acho melhor você calar a porra da boca e fazer o teu trabalho. Não vou admitir questionamentos de um novato sem experiência a respeito da análise de dois excelentes psiquiatras.
Vinne se sente derrotado, balança a cabeça de forma positiva e com atitude submissa, pede desculpas ao Diretor, vai em seguida até onde Serenna estava, procurou  absorver aquilo tudo, ou ao menos tentar,  a preocupação o estava dominando, outra vez pensou em desistir, sem Daryl lá para apoia-lo a sua vida poderia se tornar mais difícil dentro de Serenity.
- Você está pálido! - A interna passou a  mão sobre o rosto do psicólogo de forma carinhosa.
- Não é nada! - Respondeu o rapaz.
- Roland pode ver coisas, sentir coisas e não é tão monstruoso assim, mas de uma coisa você tem razão, ele é um risco a todos.
VInne vira-se para Serenna e toca-lhe a mão.
- O que você sabe sobre ele?
- O suficiente pra me manter alerta! Leonard me contou!
- Contou o que?
- Pergunte a ele!
- Como?
- Não como, mas quando!
- Não entendi!
- Quando você perder o medo, será o momento de obter respostas!
- Criando caso novamente seu idiota? - Michael chega subitamente e indaga Vinne que naquele momento se encontrava sentado ao lado da fonte junto com Serenna.
- Por favor, agora não! - Respondeu ele.
- Estou de olho em você!
Vinne se levanta e com uma coragem surgida sem saber de onde, ele confronta Sales.
- Foda-se! - O dedo em riste quase toca o nariz do outro psicólogo que se surpreende. - Tem um problema comigo? A gente resolve! Eu não irei mais baixar a minha cabeça para filho da puta nenhum! Quer ir para o pessoal, tudo bem, vamos lá. Não irei arregar nem pra um escroto como você nem pra nenhum outro desgraçado desse lugar! Portanto, se não quer resolver a parada agora, saia de perto de mim!
- Você quer mesmo me confrontar, Vinne?
- Você não é porra nenhuma pra mim! Eu juro que não vou me submeter a mais ninguém, custe o que custar!
- Entendi! - Michael aponta o dedo como força de ameaça e sai dali, enquanto Vinne ainda ofegava por ter tomado aquela atitude, sua indignação, sua recém-adquirida coragem para confrontar foi temporariamente congelada quando olhou para o segundo andar e viu o espírito de Leonard, com o rosto deformado olhando diretamente ara ele. Não, ele não estava preparado para tentar conversar com Leonard, o calafrio em seu corpo lhe dava plena certeza de que não.


CONTINUA...

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