Hanna Fisio

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SERENITY

PARTE 26 - SANGUE DERRAMADO
Por Jair Nepomuceno

Quando uma mente doentia se coloca a serviço do mal, a criatividade parece ser seu fiel companheiro.

Se passavam das sete da manha quando o grito de Hecton Lens, um jovem enfermeiro estagiário, anunciava que algo sinistro havia ocorrido, ele tocou o sino dourado que ficava próximo a porta da lavanderia e que normalmente era usado quando as roupas e lençóis estavam prontos e as duas camareiras iam buscar. Mas desta vez o som da pequena sineta triunfava incansavelmente por outro motivo e tinha como complemento a voz rouca de Hector.
Antony não havia ainda chegado ao hospital, mas todos os funcionários plantonistas correram para o Jardim e lá puderam contemplar o corpo sem vida de Kelvin Obbie, e a exemplo do que aconteceu a Poll Austin, estava dilacerado e com as mesmas marcas de um assassinato doentio, o algoz arrancou-lhe os olhos, as orelhas e a língua, mas desta vez houve uma diferença, dois cortes profundos verticalmente aplicados com algum tipo de arma afiada, um nas costas e outro no pescoço. 
Entre gritos e choros, a figura de Daryl se aproxima sem demonstrar qualquer tipo de emoção, estava até bem tranquilo, Brenda que já estava em Serenity apontou o dedo ao psicólogo o chamando de assassino, houve um principio de tumulto e algumas pessoas esboçaram uma reação de agredi-lo, mas Rogger chegou e deu um tiro para o alto fazendo todos recuarem.
- Meus Deus! - Mellissa disse com as mãos sobre os próprios lábios.
Várias pessoas falavam ao mesmo tempo, alguns gritavam outros choravam, outros pronunciava entre uma frase e outra o nome de Daryl, alguém usou  a expressão "serial killer", um dos seguranças de Serenity tentou afastar as pessoas, enquanto Brenda tentava localizar o Diretor.
Cerca de dez minutos se passaram até que Antony chegou, quase junto com ele, chegaram dois policiais e vinte minutos depois Malcon entrou pelo saguão do hospital.
- Mais um assassinato brutal aqui nessa tua espelunca, Antony! - Disse o investigador e Delegado.
- Nem sei o que dizer, Malcon! - Falou o Diretor.
- Comece me passando o nome de cada puto que estava de plantão. - Virou-se para o outro policial e perguntou-lhe. - Já chamaram o IML? - O Policial fez um aceno positivo.
- Será que foi o mesmo que matou Poll? - Indagou Antony ainda olhando fixamente para o corpo inerte de Kelvin.
- Antony! - Gritou O investigador. - Acorde dessa hibernação! É lógico que foi o mesmo psicopata que cometeu o crime anterior. Agora peça pra alguém me providenciar a merda da escala de plantonistas de ontem!
O gestor de Serenity concordou imediatamente, tocou no ombro de Rogger e eles mesmos foram atrás da escala de plantão, passaram por Daryl que estava escorado na parede, de pernas cruzadas, olharam-no e ele os encarou de volta, mas não trocaram palavras.
- Deixa eu adivinhar! - Malcon foi ate onde o psicólogo estava. - Você estava de plantão ontem a noite!
- Sim, estava!
- Por que será que eu não estou surpreso? - O Delegado usou de sua ironia.
- Se quiser falar comigo a respeito de qualquer coisa, policial, faça isso de forma oficial! Me chame para depor. Não vou te ajudar a especular nada a respeito desse assassinato, ainda mais porque eu sei do teu problema comigo.
- Problema contigo? Não, eu não tenho problema algum com você! Mas parece que  vítima ali picotada ao chão tinha! e Foi bem recente!
- Como eu disse, não vou te contar nada extra-oficialmente!
- Você não vai se safar desta vez, seu imundo! - Malcon aponta o dedo tão próximo que quase toca o nariz de Daryl, continua. - Será o primeiro a depor e fará isso daqui a pouquinho, basta um telefonema meu! - O policial sai de perto do psicólogo e segue para o jardim, nesse momento Vinne chega ao hospital e sem demora foi logo conversar com Daryl.
- Meu Deus! Outro assassinato igual ao do Poll!
- Esse lugar é amaldiçoado!
- Daryl! - Fala baixinho o outro psicólogo segurando no ombro do amigo. - Você teve alguma coisa a ver com isso?
- Seu idiota! É isso que pensa de mim?
- Não penso nada! Mas você sabe que depois da briga entre você e Kelvin Obbie, tu está fadado a ser o principal suspeito!
- Você me acha suspeito? - Vinne fez menção a responder, mas fica em silêncio. - Vá a merda! - Daryl bate o ombro no peito do outro psicólogo e se dirige ao vestiário.
Meia hora depois que Malcon chegou, Serenity foi tomado por policiais e o pessoal do IML foram rápidos em recolher o corpo da vitima e sem demora leva-lo para o médico legista para oficializar a causa mortis.
As dez horas e quarenta minutos, Daryl é intimado a depor no primeiro Distrito policial, ele chega ao local por volta das onze horas e então é interrogado por Malcon, na sala, além do escrivão, haviam dois outros policias e um promotor de justiça.
- Sente-se! - Ordenou o investigador. - O psicólogo obedece imediatamente. - Ontem você estava de plantão em Serenity!
- Sim senhor! Eu e mais oito pessoas!
- Pode relatar o que motivou a briga ha três dias entre você e a vítima?
- Nós discutimos e ele me agrediu! Eu não o agredi, mesmo porque, fiquei desacordado e as marcas da violência dele o senhor pode observar em minha face!
- Estou vendo o Hematoma! Mas você não respondeu a minha pergunta!
- Eu estava indo embora, estava no estacionamento quando ele chegou descontrolado e me xingou de assassino! A unica reação minha foi dizer que não queria conversar com nenhum idiota, acho que usei o termo idiota!
- Entendi! O que não entendi foi o fato de você não ter feito boletim de ocorrência. Por que?
- Por que não julguei necessário!
- Quer dizer que um brutamontes te espanca a troco de nada, quebra a tua fuça e você o que faz? Nada! Julga não haver necessidade de punir o agressor. Muito estranho isso!
- Na minha terra brigas de rua, desde que não haja morte, ninguém leva o caso a policia, a gente resolve de outra forma!
- E você resolveu! 
- Não, não resolvi!
- Confesse que você o matou com requintes de crueldade! Você usou o que, uma faca? Um punhal?
- Eu sou inocente!
- Você é um assassino! Um desgraçado! Covarde! Isso é o que você é! E vou te dizer uma coisa, se tu confessar logo essa porra toda, vamos ganhar tempo, e a confissão poderá render a você uma redução de pena! caso contrário, a perpetua te aguarda!
- Eu teria que ser muito burro para assassinar Kelvin três dias depois que ele havia me espancado! Pensa um pouco! O assassino está aproveitando a ocasião para voltar a matar e está me incriminando!
- Nossa! Isso daria um Best Seller no melhor estilo Agatha Christie!
- Eu não o matei! - Gritou Daryl!. - Existe um maluco desgraçado em Serenity, ele está lá agora rindo de todos nós! A minha briga com Kelvin foi a oportunidade perfeita para ele voltar a agir! Como eu poderia matar o cara sabendo que eu seria o suspeito numero um? Eu teria que ser muito, mas muito burro mesmo!
- Isso que você acabou de dizer pode ser um álibi falso para confundir as investigações! Concorda comigo que esse teu discurso poderia até ter sido planejado antes? De burro você não tem nada!
- Olhe as câmeras!
- Que surpresa! - Ironizou o Delegado. - Por que eu não pensei nisso antes? Ainda bem que você deu a dica! Já pensou em ser investigador? Seu monte de merda! As câmeras da recepção e as duas do jardim não estão funcionando! E quer saber? Você sabia disso! Atraiu a vítima para onde poderia cometer seu crime doente sem que ninguém o visse. 
- Eu sou inocente! - Reafirma Daryl.
- Não posso te prender agora! Mas a preventiva vai chegar até amanha! Enquanto isso não ocorre, você não poderá sair de dentro de casa! E isso não é algo arbitrário, por mim você poderia morrer que seria um favor a sociedade, mas eu tenho que seguir a lei e te avisar que tem gente dizendo que você está correndo risco de morte! Talvez seja só mais um boato, mas a prevenção nesse caso se faz necessário!
- Posso ir agora?
- Vou mandar um dos meus homens te escoltar até a sua casa! E preste atenção! Nossa conversa ainda não terminou! Se a preventiva não sair até amanha, você terá que prestar outro depoimento até para que eu faça a investigação baseado no depoimento das outras pessoas! Pode ir agora! 
Daryl se levanta e sai do Distrito acompanhado por um policial, no caminho para casa pensou em todas as possibilidades, ele estava em situação delicada e a sua condenação parecia iminente, a não ser que o verdadeiro assassino fosse pego antes. Só havia uma pessoa em quem ele poderia confiar e era nele que o psicólogo iria apostar todas as suas fichas!


CONTINUA...



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