SERENITY
PARTE 18 - GREEN LAKE
Por Jair Nepomuceno
Feridas do passado podem confundir o ser e o viver no presente, livrar-se dessa marca profunda muitas vezes se torna algo impossível, cabe então, viver cada dia, ser cada dia.
Em Serenity as coisas aconteciam freneticamente, todo amanhecer parecia um convite para as surpresas, os olhares das pessoas dentro do hospital demonstravam inquietações, desconfianças e de certa forma insegurança.
Vinne mesmo recém-chegado já havia percebido que a normalidade era um luxo ao qual não estava disponível de se encontrar em Serenity, no caso dele, as coisas se tornavam a cada dia mais macabro, as respostas que buscava poderiam trazer sequelas profundas em sua vida.
- Desculpem entrar assim sem aviso. - Disse o novato.
- Tudo bem, eu já estava de saída! - Respondeu Daryl.
- Continuaremos com a nossa conversa em breve. - Falou Antony olhando nos olhos de Daryl, continuou em seguida. - Vou tomar as providências, conversar com o nosso problemático amigo.
- Só conversar não adianta, Diretor. O que eu trouxe a você é coisa séria. Faça ago de concreto!
- Ok. parou a conversa por aqui! - Antony fala deixando claro que não queria conversar mais sobre aquele assunto na frente de Vinne. - Se me dão licença agora, tenho que voltar ao trabalho.
Vinne e o outro psicólogo saem da sala do gestor de Serenity, o novato demonstrava felicidade por ver o outro livre das grades, os dois caminharam juntos até o saguão, de lá seguiram para o estacionamento.
MIchael entregou as chaves do carro para o psicólogo que agora estava livre outra vez, ele agradeceu e apertou-lhe a mão, Vinne o seguiu até o carro, entraram e Daryl nada sutil, depois de ficarem reservados foi logo dizendo:
- Fala cara! Diz logo o que quer me contar!
- Como sabe que tenho algo a te contar? - Perguntou Vinne.
- Cara, fala de uma vez!
- Você conhece Melissa?
- A outra recepcionista? Sim, por quê?
- Porque a vi no porão conversando com outra pessoa por telefone e achei o papo um tanto estranho!
- Que tipo de papo?
- Ela dizia que alguém estava desconfiando, que se descobrissem ela e a outra pessoa entrariam em uma fria!
- Descobrisse o que?
- Eu sei lá! Quando cheguei ela já estava conversando, depois tropecei em uma lata, fiz barulho e ela veio pra cima de mim segurando um pequeno machado. Na hora pensei que ela iria me matar!
- E depois?
Vinne evitou falar sobre as "assombrações" que havia presenciado, decidiu falar só sobre Melissa.
- Eu desconversei, disse que tinha ouvido barulho e que teria descido lá, mas que havia acabado de chegar. Acho que ela engoliu a desculpa.
- E ela disse o que estaria fazendo la?
- Me deu uma desculpa esfarrapada que tinha ouvido um barulho e que viu ratos, ou algo do tipo!
- Melissa nunca foi suspeita de nada para mim! Eu a acho completamente inexpressiva, uma pobre coitada que já até apanhou do marido. Uma inútil!
- Ela pode ser a assassina!
- Aquela pomba lesa? Duvido muito! Pode ser que ela saiba quem matou, talvez a outra pessoa que estivesse conversando com ela seja até o assassino, mas achar que aquela mula manca possa ter matado alguém é ridículo.
Vinne coça o queixo, volta o seu olhar para Daryl.
- Mudando de assunto, o que existe entre você e o Diretor?
- Porra cara! Tu é insistente!
- Você é uma boa pessoa, Daryl, eu sei disso! Já convivi com muita gente ruim e você não se enquadra no perfil de nenhum desajustado que eu tenha conhecido.
Daryl respira fundo, balança a cabeça negativamente, volta o seu olhar para o outro psicólogo e em voz pausada e tristonha diz:
- Não sou tão bom quanto você pensa, já fiz coisas feias!
- Malcon me contou que você já respondeu a destruição de patrimônio público, destruição a propriedade particular, ficou preso por quatro meses. Também responde a porte ilegal de arma.
Daryl sorrir, faz uma careta e em seguida fala a Vinne ainda balançando a cabeça.
- Malcon parece ter algo pessoal contra mim. Eu tenho porte de arma, o que ocorreu foi que estava com o porte vencido. A destruição de patrimônio público foi na verdade um poste que eu derrubei ao colidir o meu carro. Quanto a destruição de patrimônio privado a que ele se referiu foi eu ter quebrado o carro usando uma marreta. O dono do veículo era o meu ex-sócio que havia me roubado e a empresa havia quebrado. Fui condenado ha quatro meses de prisão transformado em serviços comunitários.
- Então por que você diz que não é uma boa pessoa?
- Porque fiz parte indiretamente de algo terrível que aconteceu dois anos atrás!
- O quê?
- Melhor que você não saiba!
- Confie em mim!
Daryl esfrega os seus negros cabelos, parece que o outro psicólogo era alguém que lhe transmitia segurança, lealdade.
- Já ouviu falar do caso de Green Lake?
- Green Lake é um lugar muito bonito!
- Estou me referindo a um crime ocorrido lá cerca de dois anos atrás.
- Não me lembro de ter lido nada a respeito.
- Uma mulher foi morta lá com requintes de crueldade!
Vinne se espantou.
- Você tem relação a esse assassinato ocorrido em Green Lake?
- Escute aqui cara. O que eu irei te contar é coisa muito séria. Saber desse episódio pode te trazer risco de morte. Pessoas envolvidas nesse crime estão aqui bem próximos de mim e de você. Preciso confiar em alguém, preciso contar isso a alguém.
Vinne aperta o ombro de Daryl e diz:
- Eu juro que pode confiar em mim!
- Antony está diretamente ligado a esse assassinato, ele, usou de coisas macabras junto com uma outra mulher e a jovem morta foi oferecida tipo como sacrifício...
CONTINUA...
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