SERENITY
PARTE 32 - ENTENDENDO SERENITY
Por Jair Nepomuceno
Quando algumas informações chegam outras podem surgir pela mesma vertente, cabe ao receptor entender e fazer bom uso daquilo que se tem, mas se deve ter cautela com aquilo que se adquire.
Malcon sempre fora um investigador do tipo persistente e como já vimos antes, as vezes o bom senso e a coerência não se fazem uso por ele, muito pelo contrário, por diversas vezes utilizou de métodos pouco ortodoxos, mas com o cuidado de não sair em definitivo da esfera da lei.
Ao perguntar a respeito da suposta criança que havia visto no terraço do hospital o policial fez Daryl mudar o semblante, ele que já havia se surpreendido com as outras colocações do Investigador não conseguiu esconder a sua surpresa a respeito daquela indagação, mesmo porque, Malcon já havia mudado a linha de raciocínio naquele papo informal, começou falando sobre Antony e depois mudou repentinamente o percurso da conversa, talvez fosse uma tática daquele homem, pensou Daryl, quem sabe fosse uma linha só dele de investigação.
- Criança, o senhor disse? - Indagou o psicólogo. - Não há crianças em Serenity!
- Não, não há! - Confirmou o Delegado. - Mas já tivemos uma que morreu lá em um incêndio que na minha opinião foi criminoso.
- Criminoso? Mas o laudo deu como causado por um curto circuito!
- Sim, mas conversei com muitos bombeiros a respeito de como o fogo se propagou e a maneira que ele supostamente havia começado, e não para a minha surpresa, eles afirmaram que para o incêndio tomar aquelas proporções deveria ter sido iniciado com algum tipo de combustível, como gasolina ou querosene, por exemplo.
- Mas isso é só suposição sua!
- Isso é investigação, rapaz, não confunda as coisas!
- Então por que não interroga o responsável pelo laudo?
- Você está querendo ensinar padre a rezar missa? Foi a primeira coisa que fui fazer, mas olhe só, o responsável por aquele laudo faleceu cerca de oito meses atrás!
- Sério?
- Seríssimo! Teve um ataque cardíaco fulminante! E advinha, ele era primo de uma figuraça ilustre aqui de Saint Sofhie!
- De qual figura ilustre?
- Pasme, mas ele era parente do seu Diretor e olhe só que coincidência, Antony já era o Gestor daquele hospital quando ocorreu o incêndio!
- O senhor ta insinuando que o Doutor Antony teve algo a ver com aquele incêndio?
- Não digo do incêndio, mas haveria interesse dele em encobrir a verdade!
- Que tipo de interesse seria?
- Porra cara, você não é nem um pouco inteligente! Pensa por um segundo e tente responder a merda dessa tua pergunta!
- Eu não tenho o dom de investigação, Malcon, como eu poderia supor algo assim?
O Delegado respira fundo, por alguns segundos da as costas a Daryl, se vira novamente para o psicólogo com as mãos na cintura e continua a sua fala.
- Serenity recebe pacientes não só desta região, vem gente de outras jurisdição porque aquele hospital é reconhecido nacionalmente e até internacionalmente por conta dos métodos que se aplica lá para tratar os malucos! Serenity não se mantém somente com a verba liberada pelo estado, se mantém com verbas particulares, muitos pacientes lá é a família quem paga o internato deles e não é barato. A notícia de que lá houve um incêndio criminoso que vitimou algumas pessoas e, entre essas pessoas se fez vítima uma criança, poderia fazer com que aquela porra de hospital perdesse a referência e isso iria refletir diretamente na instituição! Agora para e pensa! Você como gestor não iria tomar medidas, sejam elas quais forem para manter a fachada da instituição imaculada?
Daryl morde o próprio lábio, balança a cabeça negativamente e diz:
- Isso é muito louco! Só em pensar em algo assim me deixa com uma má sensação!
- Coisas estranhas ocorrem lá naquela pocilga, nem sei como aquilo continua aberto! E eu sei que você tem respostas, sei que vir aqui falar contigo seria algo inusitado mas necessário. Se você vai ser sincero nas respostas eu não posso garantir, o que posso dizer é que o fato de eu estar aqui conversando com você não significa que eu deixei de vê-lo como suspeito!
- Que respostas o senhor quer de mim?
- Quem é aquela criança?
- O senhor me disse que uma criança faleceu no incêndio! Quer que eu afirme que é a mesma?
- Pesquisei a respeito da criança que morreu lá, tudo que descobri era que se tratava de um filho de funcionário! Agora, as pessoas com quem conversei, lá de dentro de Serenity, não souberam ou não quiseram me responder a essa pergunta!
- O senhor acredita em fantasmas?
- Eu acredito naquilo que meus olhos me mostram, rapaz! Eu sei que você sabe o que isso significa!
- Seu nome é Leonard! - Respondeu Daryl pausadamente. - Ele morreu queimado naquele incêndio, era supostamente filho de uma funcionária da época, ou de alguém que ainda trabalha lá, não da pra saber ao certo, porque isso é outro segredinho mantido a sete chaves por todos lá em Serenity.
- Você já o viu?
- Não, mas muita gente afirma que já o viu andando pelos corredores do hospital, que ele tem olhos esbranquiçados, rosto deformado como se tivesse acabado de ser queimado, ha quem diga inclusive, que da pra sentir o cheiro de carne queimada quando ele aparece!
- Morreram quatro pessoas, por que só o espírito de uma aparece?
- Não sei! Não sou espírita, não entendo porra nenhuma desses assuntos, mas já ouvi relatos que um outro fantasma não identificado aparece, não na mesma proporção do pequeno Leonard, é como uma figura negra, um espectro com silhueta confusa!
- Antony já comentou com você a respeito desses, digamos, fantasmas?
- Ele diz que é mentira! Que isso é apenas efeito causado por uso continuo de neurolépticos!
- Que porra é neurolépticos?
- Medicamento, Malcon, também conhecido por antipsicóticos!
- Entendo.
- Ele diz não crer na existência de fenômenos paranormais!
- E você?
- Isso é relevante, Delegado?
- Na verdade não tanto.
- Próxima pergunta!
- Mellissa recebeu uma espada na véspera do assassinato do seu desafeto.
- Não sabia!
- O que me diz dela?
- Ela é uma pobre coitada, uma criatura sem brio, sem personalidade, uma inútil do tipo que pena é a unica coisa que um ser humano normal poderia sentir pela simples existência patética dela no mundo.!
O Delegado arregala os olhos, tantos adjetivos usados contra uma pessoa, mas todos pejorativos, ele tentou entender a razão do psicólogo usar tais palavras tão depreciativas a fim de molda, segundo a sua visão, a personalidade de Mellissa.
- Por que acha tudo isso dela?
- Porque o marido dela, aquele covarde safado, bate nela! Já tentaram ajuda-la em relação a isso, mas ela parece que gosta de apanhar! Ela já discutiu e já fez Antony demitir uma pessoa por conta dessa realidade. Então, na minha modesta opinião é uma pessoa patética! Eu não movo um dedo para ajuda-la, por mim ela pode chegar em Serenity usando dentadura ou aleijada, vai receber ajuda de outros, de minha parte só encontrará o desprezo!
- Eu tive o desprazer de conhecer o sujeito!
- Essa espada pode ter sido comprada por ela para dar a ele! Parece que o escroto coleciona armas!
- Eu a interroguei e ela afirmou isso!
- E é verdade!
- Só que a suposta espada pode ter sido usada para matar Kelvin, olhe só, a arma sumiu do armário dela um dia antes do assassinato, até agora não apareceu!
- Ah tah! - Gargalhou Daryl. - O senhor acha mesmo que aquela infeliz teria coragem de matar um brutamontes como Kelvin, mesmo pelas costas? Eu sinceramente acho isso muito surreal! Improvável.
- O marido dela poderia fazê-lo facilmente não poderia?
- Sim, mas ele nem trabalha em Serenity, e outra coisa, o que o motivaria a matar Kelvin?
- Ciúmes, talvez!
- É serio que o senhor imagine essa possibilidade?
- Não posso descartar nada ainda. Aliás, não posso descartar nem a possibilidade do seu amigo Vinne ter alguma coisa a ver com esses assassinatos!
Daryl sorrir mais uma vez.
- O senhor só pode estar de brincadeira! Vinne nem estava aqui quando Poll foi morto, e segundo o senhor mesmo noticiou, os dois assassinatos tem ligações.
- Ele poderia ter vindo sem que ninguém soubesse um dia antes e feito o serviço!
- Sem ninguém tê-lo visto?
- As câmeras de segurança da entrada de Serenity e do Jardim não estão funcionando desde antes da morte de Poll. Qualquer um poderia entrar sem ser notado, feito a porra toda, depois saído sem ser incomodado. Por essa razão, Antony também é suspeito, não só ele e Vinne, mas todos que não estavam no hospital nas duas noites que ocorreram os assassinatos!
- O que motivaria Vinne a cometer esses crimes?
- É isso que quero descobrir, mas vou descobrir! - O Delegado se levanta decidido em ir embora. - Não vou mais tomar o seu tempo, já consegui algumas informações que queria, só posso agradecê-lo!
Daryl se levanta, aperta a mão de Malcon para se despedir ainda pensando do que ele havia acabado de dizer, "já consegui algumas informações que queria", o que aquilo queria dizer? Perguntou pra si mesmo o agora preocupado psicólogo.
- Volte sempre que quiser!
- Voltarei! - Disse Malcon já saindo pelo portão, mas antes de partir, completa a fala. - E conversaremos um pouco mais a respeito de Green Lake e Leonora!
CONTINUA...
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